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Ribeirão Mathias – uma preocupação antiga

Maria Cristina Dias

A situação do rio Mathias, que corta o centro de Joinville e deságua no rio Cachoeira, já era motivo de preocupação desde o início da colonização e motivou o que provavelmente foi a primeira mobilização ambientalista na Colônia Dona Francisca. Em 1865, um movimento liderado pelo imigrante Carl Lewin, representante do Conselho Comunal da Colônia, já reivindicava que se regulasse e restringisse o uso das águas do rio, evitando a sua crescente contaminação.

A discussão ganhou as páginas do Kolonie Zeitung, o jornal da colônia, dividiu as opiniões dos moradores e foi parar na Câmara Municipal de São Francisco, a quem a vila era subordinada. Mas os argumentos ambientalistas não foram ouvidos e o uso indiscriminado das águas do manancial foi proibido somente na área acima do “hospital”, próximo de onde hoje é a rua Henrique Meyer, esquina com rua Visconde de Taunay.

De lá até desaguar no Cachoeira, ele poderia ser utilizado livremente pelos moradores. “A partir deste decreto o rio começou a se perder. Esta era a luta ambiental da época”, explica a pesquisadora Brigitte Brandenburg, que traduziu do Kolonie Zeitung as notícias sobre a manifestação dos moradores a favor do rio e o desenrolar dos acontecimentos.

O rio Mathias nasce próximo ao morro do Batalhão, na rua Marquês de Olinda, desce pela rua Otto Boehm e ainda pode ser visto em um trecho cruzando a rua Expedicionário Holz. Depois segue para a rua Visconde de Taunay, cruza a confluência da 9 de março, João Colin e JK e segue por baixo das construções da rua 9 de Março, Terminal Urbano e Praça da Bandeira até desembocar no Cachoeira. Ele hoje está praticamente todo canalizado, mas sua presença é sentida quando, em períodos de maré cheia do rio Cachoeira e chuvas fortes, suas águas brotam dos bueiros e alagam as ruas do Centro.

A reivindicação de parte da comunidade chegou ao jornal no início de 1865, 14 anos depois da fundação da Colônia Dona Francisca. Na época, o marceneiro Carl Lewin, representante do Conselho Comunal da Colônia, encaminhou uma petição à Câmara Municipal de São Francisco solicitando a elaboração de decreto que considerasse o ribeirão Mathias como córrego de água limpa. Com isto, o objetivo era evitar que o rio continuasse sendo contaminado.

Na prática o rio era usado para tudo, desde banhos ao final do dia até a lavagem de roupas. Animais mortos também acabavam em suas águas. Com isto, a proliferação de doenças entre a população não era rara. “Naquela época ainda não havia canalização do manancial do morro do Boa Vista para a vila, o que ocorreu apenas muitos anos mais tarde e o rio Mathias era a principal fonte de água para os moradores da rua Alemã, rua do Meio, rua Cachoeira, Rua do Porto e áreas próximas”, destaca a pesquisadora, referindo-se às atuais ruas Visconde de Taunay, 15 de Novembro, Princesa Isabel e 9 de Março.

Brigitte relata que a petição obteve a adesão de grande número de moradores, mas não alcançou o número suficiente para votação. E gerou reação em parte da comunidade. “Ao mesmo tempo, um pequeno grupo de pessoas mais abastadas, também residentes na vila, enviou uma segunda petição de oposição a qualquer restrição e livre utilização da água”, conta, ressaltando que esta segunda petição, no entanto, contava com bem menos assinaturas que a primeira.

Os opositores alegavam que o rio Mathias era limpo onde havia mata virgem “Na entrada da vila, onde se localizava o Hospital da Colônia, onde água limpa era questão de saúde”, explica a pesquisadora. Este local fica hoje na rua Henrique Meyer, ao lado do atual Hotel Tannenhoff.

A surpresa veio com o resultado das reclamações. A Câmara Municipal de São Francisco, sob comando de Otto Niemeyer, irmão do diretor da colônia, Luiz Niemeyer, decidiu atender à segunda petição. Assim a proibição para usar o rio era apenas no trecho acima do hospital – de lá, até o rio Cachoeira, os moradores podiam usá-lo como quisessem. O decreto foi publicado no Kolonie Zeitung, em 1865 .

Manancial foi fundamental no início da colonização

A preocupação com a poluição do rio tinha razão de ser. Com águas limpas, o rio Mathias foi fundamental no início da colonização e durante anos foi o principal manancial da região. A própria determinação do local da primeira estrutura para receber os imigrantes foi determinada pela existência do riacho – ainda em 1850, pelo engenheiro Hermann Günther. “Subindo o pequeno riacho ‘de águas puras e cristalinas’, mais tarde chamado ribeirão Mathias a uma distância de 100 braças (220 metros) do rio Cachoeira, derrubou-se a mata virgem para abrir as primeira clareiras.

Construíram-se em seguida dois ranchos espaçosos, nas duas margens do riacho, ligados por uma pequena ponte rústica”, relata Carlos Ficker, em seu livro “História de Joinville – Crônicas da Colônia Dona Francisca”. Este rancho ficava onde é hoje a chamada “travessa Mato Grosso”, entre as atuais ruas 9 de Março e 15 de Novembro, e depois da chegada dos primeiros imigrantes foi transformado em casa de oração e escola.

Os motivos que o levaram a escolher o local foram explicados por Hermann Günther em carta publicada na edição 44, de abril de 1851, do “Allgemeine Auswanderungs Zeitung” (Jornal Universal da Emigração), de Rudolstadt. ”Eu escolhi para o primeiro ponto de estabelecimento o rio Mathias; Isto foi resolvido com critério e cuidado, sem deixar de tomar todas as informações devidas.

O rio possui água corrente saudável, de boa vazão, e pode ser navegável até bem acima do local escolhido, o que servirá para desembarcar os colonos. Mais tarde também servirá para construir caminhos (ao longo do rio), o que envolverá o uso de menores recursos”, revelou. A carta foi traduzida por Brigitte e o jornal pode ser visto no site da Universidade da Baviera, no link http://zs.thulb.uni-jena.de/content/main/journals/aaz.xml. “Depois, ele foi demitido justamente por esta escolha”, explica Brigitte.

A ilustração do Theodor Rodowicz von Oswiecimky, que esteve na colônia e publicou em 1853 , em Hamburgo, o livro “A Colônia Dona Francisca no Sul do Brasil”, mostra as primeiras construções do lugarejo. Baseado nele, o engenheiro joinvilense Pedro Silva Inácio desenhou um mapa do rio Mathias, localizando as casas citadas por Rodowicz e ajudando a entender a importância do manancial nesta época. No mapa também fica claro como as primeiras ruas da nova colônia seguiam próximas ao rio, garantindo com isso água para os lotes que por ali eram instalados.
O mapa mostra o traçado das as atuais ruas 9 de Março (Hafenstrasse), rua do Príncipe (Zigeleistrasse), rua Princesa Isabel (Obere Hafenstrasse), rua Dr João Colin (Nordstrasse), rua Visconde de Taunay (Mathias Strasse) e rua 15 de Novembro (Mittelweg). Crédito: Pedro Silva Inácio

O mapa mostra o traçado das as atuais ruas 9 de Março (Hafenstrasse), rua do Príncipe (Zigeleistrasse), rua Princesa Isabel (Obere Hafenstrasse), rua Dr João Colin (Nordstrasse), rua Visconde de Taunay (Mathias Strasse) e rua 15 de Novembro (Mittelweg). Crédito: Pedro Silva Inácio

“Matthiasstrom”, nas memórias da Colônia

Fazer matérias para resgatar as muitas histórias do passado não é uma novidade em Joinville. Em 1896, o Kolonie Zeitung já fazia isso e publicava uma série de artigos sobre as memórias da colônia. Em um deles, o redator lembra o caso desta primeira batalha ambiental ocorrida por aqui, em 1865. E enaltece o papel do rio Mathias para a comunidade da época. “Em uma de suas afirmações, cita que ‘o rio Matias vinha assim como o Ganges, o Jordão, e outros rios considerados sagrados e eternos’. E este era o motivo pelo qual o rio foi batizado com o nome de “Matthiasstrom”, em alusão a “Heiligen Stromes”, caudal sagrado”, revela Brigitte Brandenburg, que traduziu o material.

Sobre o rio, ele conta que a princípio tinha água limpa a cristalina (expressões que aparecem muitas vezes nos livros de História de Joinville para descrever o rio), mas destaca que com o passar do tempo o lixo foi tomando conta do manancial. “Mas ao longo do tempo, ocorreram diversas violações, que possivelmente se iniciaram em 1864, e que ameaçavam sepultar a velha e boa reputação de sua água.

Apareceram dejetos como esterco de animais, porcos e cachorros mortos boiando rio abaixo, o que motivou a origem do movimento para restrição de uso ao longo de toda sua extensão, e que poderia ser punida mediante regulamentação pela câmara”, dizia o redator, que defendia a necessidade de “reconquistar para o rio a antiga condição de fonte sagrada”.

Obs.: Esta matéria foi escrita pela jornalista Maria Cristina Dias e publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville em 25 de agosto de 2012.

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