Terça, 24/05/2022
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Psicóloga do Sistema Hapvida fala sobre os benefícios e pontos de atenção na relação das crianças e jovens com os jogos

fevereiro 23, 2022
Psicóloga do Sistema Hapvida fala sobre os benefícios e pontos de atenção na relação das crianças e jovens com os jogos
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Países como a China têm a prática de recomendar a limitação do uso de jogos on-line aos menores em até 3 horas por semana. A decisão suscita um antigo debate sobre os benefícios e pontos de atenção da prática. Vejo muitos pontos positivos, que precisam ser ponderados. 

Com o devido apoio e a orientação dos pais e/ou cuidadores, os jogos podem ajudar as crianças e adolescentes a desenvolver sua criatividade, cultivar relacionamentos com amigos e melhorar o pensamento estratégico. Permitem a possibilidade de resolução de situações, com a construção de uma “outra realidade” para a expressão de sentimentos e liberação de tensão. Estimulam a liberação da dopamina, que está diretamente ligada ao sistema de recompensa – prazer ao vencer uma fase, passar algo difícil no jogo, por exemplo.

Há benefícios de aprendizado e desenvolvimento. São ótima fonte para desenvolver habilidades de aprendizagem precoce para crianças menores; aumentam a memória, a velocidade do cérebro e a concentração; promovem o trabalho em equipe e fortalecem a confiança. Também podem contribuir na construção da perseverança para atingir metas, resiliência e melhorar habilidades de comunicação e percepção dos limites nos relacionamentos interpessoais. Jogos como Tetris e com foco em testar habilidades de resolução de problemas aprimoram a lógica, padrões ou conclusão de palavras.

O hábito de ler, principalmente entre estudantes jovens no Brasil, vem sofrendo uma diminuição nos últimos tempos, de acordo com as últimas pesquisas realizadas pelo Instituto Pró-Livro no país (INSTITUTO PRÓ-LIVRO, 2008, 2011). Assim, as mídias digitais, incluindo os jogos digitais, se constituem em novos suportes de leitura, tendo como característica fundamental o fato de serem integrativas e colaborativas, o que muda as formas de ler e as práticas de leitura.

Neste cenário das novas tecnologias da informação e comunicação alterando os hábitos dos indivíduos, dentre eles, o da leitura e da escrita, surge então o conceito de letramento digital. Para Soares (2002), o letramento digital é uma condição ou um estado das pessoas que se apropriam das novas tecnologias digitais para exercer práticas de leitura e escrita por meio de telas [do computador, do smartphone, etc.]. Esta condição é diferente da situação dos indivíduos que exercem práticas de leitura e escrita no papel.

Diálogo e acompanhamento dos cuidadores são fundamentais

Na minha prática clínica, percebo o quão tênue é o limite entre os benefícios e prejuízos dos jogos virtuais, potencializados pelo tempo de pandemia. Trabalhar o equilíbrio é necessário: é perceptível em algumas crianças e adolescentes o desconforto e angústia em se deparar com os jogos físicos, pois estes trazem de forma real e no ambiente terapêutico a necessidade de enfrentamento da frustração e perseverança no objetivo e construção de estratégias.

A participação da família é fundamental em qualquer aspecto do desenvolvimento, pois fornece à criança o amparo necessário e melhoria nos vínculos afetivos. Não está relacionado a uma exigência de “dominar completamente os jogos digitais”, mas de mostrar interesse pelas atividades dos filhos e estar aberta a possibilidade de comunicação e aprendizagem entre pais e filhos. Não necessariamente os pais necessitam saber e dominar aquele tipo de jogo ou ambiente virtual – é preciso considerar os aspectos culturais, acesso aos recursos, escolaridade, entre outros. O princípio fundamental na aproximação e convivência familiar é o diálogo: quanto mais abertura e disposição em compreender, melhor será a proximidade e relacionamento.

É fundamental e urgente conversar com os filhos sobre os riscos do ambiente virtual, pois a criança está no processo de desenvolvimento da percepção, maturidade, reconhecimento de riscos, entre outros. Desde pequena, a criança já pode ser orientada, não há um limite de idade, apenas a necessidade de reconhecer qual a condição e maneira adequada para que ela entenda aquela explicação naquele momento. Por exemplo, você pode esclarecer sobre os riscos para uma criança de 2 anos e uma de 12 anos: a diferença está na construção da argumentação, recursos de compreensão disponíveis pela criança.

A questão dos relacionamentos tóxicos não está restrita ao ambiente virtual, sendo assim, o diálogo é fundamental para clarear e expor os riscos de tais relacionamentos. Possibilitar um ambiente de fala acolhedor e confiável – compreender a forma de pensar do outro, antes do julgamento precipitado; palavras de afirmação e valorização das qualidades do filho; e questionar sobre o real motivo dos relacionamentos – busca por reconhecimento, carência e inclusão em um grupo.

Outro ponto importante é observar sinais como a perda do controle sobre a frequência, intensidade e tempo diante dos jogos; dar prioridade aos jogos em detrimento de outras atividades do dia a dia; e continuar ou aumentar a frequência com jogos mesmo diante de consequências negativas. Encontrar o equilíbrio é necessário e parte da organização e rotina de cada família; mesmo que seja frustrante estabelecer limites, essa iniciativa favorece a organização da criança ou adolescente, percepção sobre as responsabilidades “reais”, além do incentivo a viver de maneira prática a resolução de conflitos, enfrentamento de situações. Quanto ao tempo de tela, a orientação é de que quanto menor a criança, menor também deve ser o tempo de exposição.

Os jogos – assim como séries, podem potencializar sintomas e reforçar comportamentos pré-existentes ao tempo de exposição. O tempo excessivo de exposição e até mesmo o tipo de jogo podem gerar na criança ou adolescente um “senso de urgência” distorcido, por exemplo: se não concluir agora, vou perder…vou estar em desvantagem em relação aos demais jogadores. É necessário observar a classificação etária, que favorece a compreensão sobre os níveis de exigência e estimulo presentes em cada jogo; e ser coerente com a etapa de desenvolvimento cognitivo referente a idade, isto é, não ser exigido além do esperado (ou suportado) para aquele momento.

Não creio haver relação entre os jogos de guerra e a violência, pois atos de violência não são apenas consequência da exposição e tempo de jogo virtual. Os jogos podem funcionar como um momento de alivio, descarga de tensões, por isso a importância de conhecer e estar atento a sua singularidade – como lida com as emoções, como resolve conflitos, qual valor da palavra e as maneiras mais assertivas de relacionar, sem necessitar do uso da violência e imposição autoritária da sua vontade.

A Sociedade Brasileira de Pediatria tem uma cartilha com orientações sobre o uso de aparelhos tecnológicos para médicos, pais e educadores. É um recurso acessível e de fácil compreensão, com orientações precisas e embasadas cientificamente sobre o assunto. Deixo aqui também duas sugestões de livros, do autor Daniel Siegel: “O Cérebro da Criança” e “O Cérebro do Adolescente”. Não abordam especificamente sobre jogos, mas possibilitam uma compreensão sobre o funcionamento mental, estruturas importantes e estímulos a crianças e adolescentes. De fácil leitura, são materiais ricos para pais e familiares compreenderem e estabelecerem estratégias adequadas de cuidado nas diferentes etapas do desenvolvimento.

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da leitura no Brasil. Disponível em: http://www.snel.org.br/wp-content/uploads/2012/08/pesquisa_habito_de_leitura_2008.pdf Acesso em: 23 setembro de 2021.
SOARES, M. Novas Práticas De Leitura E Escrita: Letramento Na Cibercultura. Educação e Sociedade. v. 23, n. 81, p. 143–160, 2002.

 

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