Quinta, 23/09/2021
Joinville - SC
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No insuperável discurso de Jesus, na montanha, temos uma das frases bíblicas que mais nos ensina quanto ao trato relacional. Em Mateus 7:6 está escrito: “Não deis aos cães o que é sagrado, nem atireis vossas pérolas aos porcos, para que não às pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem.

Diante disso, quantas vezes nos frustramos com amizades neófitas e temos que elaborar este luto até que venhamos a aprender o que esta frase nos vem a ensinar? O que temos de mais sagrado em nós que não venha a ser o nosso tempo e conhecimento?

Este artigo é um alerta para quem é afoito em ajudar as pessoas, instruí-las, preocupa-se com o bem delas, quer abrir o olhos dela sobre o que está sendo cega ou equivocada, deseja alertá-las, ajudar a abrir a mente delas, fazer com que as pessoas entendam melhor a si mesmas, promover reflexão nas pessoas, querer falar algo para que evoluam melhor, mostrar para elas o caminho equivocado que estão tomando, sobre amizades prejudiciais que possuem, entre outras ações afins, pois não basta desejar e se esforçar em ajudar alguém, é preciso que este alguém sinta necessidade e desejo de ser ajudado, e preparado para tal, tendo suporte para receber mais luz do conhecimento. Do contrário, trata-se de perda de tempo para todos os envolvidos, quando não de promoção de dor e sofrimento maior.

E estes só terão sentido de ser se forem compartilhados com o outro, pois o que há de proveitoso e prazeroso em termos tempo e conhecimento apenas para nós mesmos? Muitas das vezes, corremos afoitos diante de uma criatura, por nós escolhida, para brindá-la com o que de mais valioso temos, isto é, nosso tempo e conhecimento. Mas nem sempre ela tem estrutura psíquica, capacidade cognitiva e está de braços abertos para esta oferta, mesmo que venha a ser para seu próprio benefício maior.

Antes de oferecermos algo ao outro, precisamos perceber se este mesmo outro deseja e tem capacidade de acolher este obséquio. Os porcos, por não compreenderem o valor das pérolas, o que farão além de pisoteá-las sobre a lama onde fazem morada, quando não vem ainda este lodo a nos respingar, sendo este o nosso ganho por tentarmos oferecer algo caro para eles, os quais não tem capacidade de tal reconhecimento e importância?

Isso se eles não ficarem bravos e tentarem nos ferir por acharem que estamos querendo machucá-los ou provocá-los ao oferecermos nossas mais caras pérolas, as quais foram obtidas com tanto sacrifício por nós. Como também podem achar que estamos entrando numa intimidade que não nos deram abertura para tal. Mas eles não têm culpa, pois simplesmente não compreendem o valor destas pérolas.

Ao damos uma nota de duzentos reais para um bebê, o que ele fará além de rasgá-la, achando isso divertido, para desespero nosso? Mas a culpa é nossa, por não termos nos dado conta de que o infanto não compreende ainda o que aquele papel simboliza na sociedade e muito menos o quanto foi custoso para nós conseguirmos tê-lo.

Assim ocorre nos relacionamentos humanos, pois muitas das vezes, ficamos animados em oferecermos conhecimento e amizade verdadeira às pessoas, mas colhemos “lama”, isto é, negação, aborrecimento e sofrimento como resposta.

Mesmo que venhamos a oferecer um baú ou uma bandeja de prata repleta de tesouros de valores incomensuráveis, e que lutamos tanto para obtê-los, para alguém que não compreenda o valor deste tesouro, mesmo que venha a ficar deslumbrado com o brilho que as joias recebidas proporcionam, desperdiçará o presente e não sentirá gratidão adequada pelo mesmo, se não vier ainda a pagar com o desprezo e o ódio.

Temos ainda aqueles que, mesmo sabendo que o que falamos para eles vai ao encontro de sua realidade, mas devido a não estarem preparados para tal processo de elaboração enfrentar em dado momento, se afastam de nós e buscarão motivos para tal sem demora, dando desculpas para si mesmos por isso, quando não raras vezes, culpando-nos por eles se afastarem de nós.

E o que dizer ainda daqueles que exigem ou suplicam de nós algumas palavras e conhecimentos e que, depois de recebidos, desprezam tudo o que fora ofertado, até mesmo podendo entrar num processo de repulsa sobre nós por trazermos à tona questões recalcadas, mesmo que venha a ser este um processo inconsciente?

Nossas pérolas devem ser presenteadas para aqueles que estão, mais do que preparados para perceberem o valor das mesmas, mas que saibam como usá-las em seu próprio benefício.

Temos que respeitar o tempo do indivíduo, pois cada qual tem o seu diante do próprio grau de entendimento e da situação vivenciada naquele momento de sua vida.

Sabemos o quanto é angustiante querermos ajudar alguém, ou mostrarmos o quanto está equivocado diante de algumas questões que estão a prejudicá-lo, mas temos que ter paciência e deixá-lo remar no seu próprio ritmo e esperar o tempo certo dele, que para alguns nunca chegará, até por covardia de se a ver com as próprias questões o por gozo em permanecer naquele estágio inferior de conhecimento e autoconhecimento.

Mas alerto que sempre terá alguém a ofertar algo, mesmo que muitos presenteiam, mui festivamente até, bijuterias belíssimas, que até aparentam ser joias raras, mas que no fundo não passam de aparências ou imitações sem grande valor.

Ainda muitos buscam insistentemente bijuterias que apenas aparentam ser de grande valor, ou que são reconhecidas como tal pelo que as deseja desta maneira, por se contentar com o mundo das aparências, não se importante de ser apenas um pseudo joia, pois se preocupa mais com a aparência, com que as pessoas pensem se tratar de uma joia verdadeira.

Pode ser um curso superior, que se obtêm graduação mesmo que sua formação tenha sido ínfima em conhecimento, mas se contenta apenas com o título conquistado. Outros investem em carros do ano, roupas da moda, casas gigantescas, esculpindo o corpo, entre outras formas de promover sua aparência social em detrimento doutros valores que não remetam tanto ao mundo das aparências, tornando-se até escravos disso tudo.

Para aqueles que pretendem vir a serem detentores de uma satisfação mais efetiva no que investe em sua vida, que busque o que a traça não rói e nem o ladrão rouba e nem a ferrugem consome, parafraseando termos bíblicos.

Claro que existem aqueles que se contentam com bijuteria no lugar de joias raras. Portanto, não percamos tempo oferecendo joias aos porcos, mas sim para aqueles que estão preparados para recebê-la diante do reconhecimento de seu real valor e utilidade em suas próprias existências.

Sócrates dizia que “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”, e em pensar que muitos desprezam o conhecimento ofertado pelo outro, principalmente pelos mais velhos e com experiência ímpar.

São joias raras desperdiçadas quando se força em oferecê-las aos que não se encontram preparados ou desejosos em recebê-las. Outros não aceitam, pois acreditam que já sabem muito, o que nos remete a fala de Isaac Newton que afirmou que “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano”.

Bem aventurado aquele que se encontra constantemente com a mente e as mãos abertas a receber as joias do conhecimento que o mundo e o outro têm a oferecer, seja este quem for, pois cada qual é detentor de algo de incomensurável valor e ímpar conhecimento a nos brindar.

Que não façamos como os porcos que, por não reconhecerem o valor do que lhes é oferecido, negam ou pisoteiam a oferta recebida.

Tem muitos que nem querem se sintonizar com tudo isso, até mesmo pela falta de curiosidade, mas entendemos bem isso ao nos remetermos a frase de Jean-Jacques Rousseau: “Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído”, portanto, tenhamos cautela ao oferecermos nossas joias mais raras aos demais.

Quem tem sede vai automaticamente ao encontro de água para beber, e assim o é para aqueles que têm desejo de vir a se aperfeiçoar e a aprender com o outro.

Tenhamos cautela ao oferecermos nosso conhecimento e tempo aos demais pelo bem deles e, ainda mais, de nós mesmos.

(este artigo faz parte do quinto livro A VIDA NO DIVÃ, de autoria de Carlos Alberto Hang, lançado pela editora carioca MULTIFOCO)

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