Sabado, 28/05/2022
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Pediatra do Sistema Hapvida explica o que é seletividade alimentar e ensina estratégias para aprimorar as refeições em família

março 2, 2022
Pediatra do Sistema Hapvida explica o que é seletividade alimentar e ensina estratégias para aprimorar as refeições em família
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A infância é um momento de crescimento muito rápido do ser humano e da obtenção de habilidades. Para que as crianças tenham uma formação corporal adequada é necessário que a alimentação tenha todos os nutrientes e grupos alimentares. A alimentação adequada é a base do crescimento, do desenvolvimento e da longevidade. É um trabalho que tem muitos resultados futuros. A infância é uma espetacular janela de oportunidade para essa promoção de saúde.

 

 

As abelhas nascem iguais, mas a abelha-rainha recebe durante a sua criação a geleia real e ela se transforma em uma abelha totalmente diferenciada das demais operárias. Da mesma forma, ao ofertar uma alimentação de melhor qualidade para as crianças, elas manifestarão o seu maior potencial genético e terão mais qualidade de vida.

Na fome oculta, por exemplo, o peso e o crescimento estão adequados, mas faltam nutrientes. A situação tem potencial para acarretar diminuição da capacidade intelectual e manifestação de genes de forma inadequada. Muitos genes que codificam para doenças crônicas podem ser suprimidos com uma alimentação equilibrada e manutenção de um adequado controle metabólico.

Um desafio que os pais e cuidadores podem encontrar no caminho é a SA (Seletividade Alimentar), distúrbio de transtorno alimentar seletivo que normalmente se desenvolve na infância, principalmente entre seis meses e seis anos. Uma das características da seletividade é a Neofobia, quando a criança come apenas os mesmos alimentos, rejeita de forma persistente as opções fora do padrão de aceitação, tem pouco apetite e desinteresse por alimentos novos.

A suspeita da seletividade alimentar se dá, muitas vezes, de modo tardio, quando os pais observam que a criança está comendo em torno de cinco a dez alimentos diferentes. A dieta fica muito restrita, com repetição das mesmas opções. Alguns sintomas são irritabilidade, recusa de sentar-se no local onde vai ser dado o alimento e choro ao observar que alguém está trazendo um alimento diferente do padrão.

A recusa alimentar pode ser considerada normal quando a criança apresenta crescimento e desenvolvimento adequados, se alimenta em pouca quantidade, mas tem uma dieta variada: aceita, pelo menos, poucos alimentos que representam cada grupo alimentar.

A importância da alimentação nos primeiros anos de vida

O aleitamento materno deve ser ofertado de forma exclusiva, pelo menos até o sexto mês, e até os dois anos ou mais, para as crianças e mães que tiverem disposição. É plenamente possível manter um período mais longo de aleitamento materno e evoluir satisfatoriamente com a introdução alimentar e o conhecimento de novos alimentos.

Um ponto de atenção é que, muitas vezes, uma mãe ansiosa, que vê que a criança não aceitou um determinado alimento, tende a buscar na mama algo que a tranquilize. Essa situação pode levar a uma não evolução da oferta de outros alimentos. Outro cuidado necessário é com a mamadeira, que tem potencial de levar à oferta de alimentos inadequados, como o mingau. A adição de massas e de amido ao leite não é recomendada.

Uma introdução alimentar inadequada, feita apenas com alimentos pastosos, preparados no liquidificador, não cria o hábito da mastigação. Desta forma, a criança pode desenvolver uma seletividade alimentar e recusa de alimentos para os quais seja necessário o ato de mastigar. Aí, depois, recusa as proteínas animais e só quer comer purê e batata frita. Isso é, infelizmente, bem comum nos consultórios.

Preparações úmidas são mais fáceis de serem aceitas, mas é importante que nessas preparações fiquem também alimentos em pedaços. Os cuidadores devem avançar com a textura para que a criança logo esteja comendo os alimentos com a textura normal. Isso acontece, geralmente, por volta dos 11 meses.

Para crianças de até um ano, não é recomendado o consumo de leite integral e de iogurtes e, até dois anos, de sucos. Eles podem se tornar alimentos “âncoras”: no momento em que ocorre alguma recusa, o cuidador recorre ao leite, por exemplo, para suprir a alimentação. E se a criança toma algum tipo de laticínio, de iogurte ou o próprio leite, uma hora antes da refeição que está programada, irá interferir diretamente no apetite.

Oferecer alimentos para a criança em um momento como uma substituição da refeição que recusou é outro hábito alimentar inadequado. O ideal é que, para crianças maiores, que já podem comer alimentos como iogurtes e biscoitos, eles sejam incorporados aos lanches, no momento adequado, para que não seja necessário fazer uma substituição na hora das refeições principais, como o café da manhã, almoço e jantar.

O prato ideal deve ter cerca de cinco cores e um alimento de cada grupo: proteína, leguminosas, verduras, legumes e carboidrato. As opções que forem recusadas não devem ser excluídas do cardápio, mas devem ser oferecidas em várias outras situações, de dez a 12 apresentações, para adaptação em relação à textura, forma e sabor. É muito comum, com o passar do tempo, a criança mudar suas preferências.

Outro ponto de atenção fica por conta dos alimentos industrializados, que normalmente apresentam excesso de sal, de açúcares ou adoçantes. Eles trazem sabores artificiais, que irão confundir as crianças na hora da aceitação de sabores mais naturais, como os das frutas.

O ambiente adequado faz toda a diferença

O último manual de orientação para alimentação das crianças brasileiras até dois anos, que é emitido pelo Ministério da Saúde, ressalta a grande importância da alimentação dentro do convívio social e do convívio da família. O momento da refeição tem que ser um momento agradável e tranquilo. A criança aprende por imitação. Observar os pais se alimentando de forma adequada irá construir um relacionamento favorável com o alimento e uma alimentação mais saudável no futuro.

A alimentação deve ser feita em uma cadeira adequada, ao lado dos pais, ou no colo do cuidador, que é uma forma mais aconchegante, mas a criança deve estar sentada adequadamente, a 90 graus. Evite fazer brincadeiras como o “aviaozinho”, manter dispositivos eletrônicos ligados ou usar qualquer tipo de distração que tire da criança a possibilidade de interagir com o alimento e conhecer a forma, aroma, textura, cor e sabor.

É recomendável oferecer refeições em intervalos de duas a três horas, mas se a criança manifestar fome antes desse período, é preferível que seja ofertada a alimentação. Observe os sinais de fome e de saciedade da criança.

O papel dos sentimentos da criança

A seletividade alimentar é um padrão mais comum em crianças com TEA (transtorno do espectro autista), que apresentam altos graus de ansiedade em idades maiores. Pode ser ocasionada também por alguma situação que causou desconforto, como engasgo, vômito, dificuldades para mastigar e deglutir, alergia alimentar e problema gastrointestinal.

Crianças pequenas, entre seis meses e um ano, que ainda têm sonecas e estão na época da introdução alimentar, não devem receber a refeição perto do horário de dormir, quando estão sonolentas ou irritadas. E quanto mais uma criança for forçada a comer, pior. Ela tem uma condição muito própria de controle da sua fome e saciedade.

A qualidade do alimento que será ofertado para a criança é uma escolha dos pais, mas a quantidade é uma escolha da criança. Em muitas situações, a criança não almoça bem ou, às vezes, até recusa totalmente a alimentação, e no lanche da tarde come muito mais do que normalmente come. O que vale é o compilado do dia, pois a fome e a saciedade da criança não respondem a horários fixos. Os pais têm esse hábito de se alimentar a cada três horas, em respeito aos horários sociais. A criança não tem essas diretrizes sociais de horário, de momento de refeição, ela se baseia unicamente pela sua fome e saciedade.

A saúde emocional e comportamento dos cuidadores também contam, e muito

Os cuidadores devem fazer contato visual com a criança ao longo da refeição. É preciso conduzir o momento com disposição, paciência e sem pressa, estar completamente envolvidos. Desentendimentos à mesa geram uma relação ruim com a refeição, que pode até levar à neofobia.

Ao se deparar com dificuldades na aceitação de refeições, não faça negociações. Isso vai gerar na criança o entendimento de que está comendo algo ruim para depois ter a recompensa, um outro alimento, como um doce, e este último ela vai memorizar que é bom.

Outro comportamento prejudicial é comparar a criança com outra. Pode gerar constrangimento nas crianças maiores e, nas menores, ansiedade nos pais, que ficam se questionando em relação à quantidade de alimentos, se o filho está com peso adequado e com um bom crescimento.

O que mais nós encontramos no consultório são situações em que a criança tem um ganho de crescimento, de peso e de desenvolvimento adequado, mas os pais acabam acreditando que a criança come pouco, por causa das comparações.

Em um trabalho de educação alimentar, os comportamentos dos cuidadores são extremamente relevantes. É impossível, por exemplo, querer que uma criança se alimente de frutas se os pais não comem também. A criança observa e, por imitação, também recusa.

Se os cuidadores identificarem e tratarem atitudes inadequadas, é possível oferecer para a família um tratamento e uma educação alimentar muito mais adequada à criança. E digo mais: em situações nas quais os pais tomam consciência das suas condições, a mudança na alimentação vai muito além da criança e traz benefícios para toda a família.

Contar com o apoio de profissionais capacitados, como pediatras e nutrólogos, é fundamental. Ter uma avaliação adequada das medidas de crescimento, ganho de peso e desenvolvimento poderá dar aos pais mais tranquilidade. Em uma situação que você tenha uma grande pressão familiar, por exemplo, é possível levar membros da família à consulta para que possam participar da conversa e alinhar comportamentos para o melhor bem-estar da criança.

Deixo aqui uma última e importante dica: o site da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) possui uma aba que é destinada à família. Você clica lá e tem as informações atualizadas, científicas, escritas em tópicos curtos e com uma linguagem totalmente acessível para todos os públicos, principalmente ao público leigo. Busque informações, cultive bons hábitos e siga o conselho de Hipócrates, que atravessou milênios e permanece atual até hoje: “que teu alimento seja teu remédio e que teu remédio seja teu alimento”.

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