Quinta, 30/06/2022
Joinville - SC

A química da paixão

abril 24, 2022
A química da paixão
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Já percebeu que, para não dizer a maioria, grande parte de quem assume relacionamentos, casando ou indo morar junto, antes de dois anos de namoro, tende a se frustrar com o envolvimento e a se separar?
Temos então quem diz que foi enganado, que seu par parecia ser outra pessoa, e que mudou muito depois da união estabelecida, entre outras tentativas de explicar a surpresa infeliz.
 
Mas será que a pessoa mudou mesmo, ou será que apenas era vista de maneira diferente?
 
E aqueles que vivem trocando o ‘status’ de relacionamento no FACEBOOK de solteiro para ‘num relacionamento sério’ e, logo em seguida, solteiro novamente, e logo depois, num relacionamento sério, e ai vai o ciclo repetitivo.
 
Alguns acham que têm o famoso dedo sujo até, outros querem desistir de se entregar a uma nova paixão, mas com este meu artigo pode ser que encontrem algumas respostas para alguns questionamentos a respeito da paixão.
 
Lembrei-me agora do drama shakespeariano, ROMEU & JULIETA, que foi romanceado, mas deixa claro o assunto que abordarei neste artigo, além de ser didático, tanto que eu o usei como exemplo por várias vezes em que proferi minha palestra A ARTE DO AMOR E DE AMAR, pois é mais que uma catástrofe, precisando não ser vista como bela, e muito menos de caráter romântico, muito menos ainda deve ser vista esta relação de Romeu e Julieta como exemplo de amor verdadeiro de fato, pois provavelmente nunca o foi.
 
Trata-se de jovens, com média de 14 anos, totalmente imaturos psicologicamente, que são envolvidos no movimento da paixão, e diante disso, acabam morrendo. Quando li este livro, décadas atrás, pensei em escrever outro sobre como seria se eles tivessem sobrevivido. Provavelmente não estariam mais juntos, se não se odiando, ou nem lembrando um que o outro existiu em sua vida.
 
Até a fase adulta, dificilmente o ser humano está preparado psicologicamente para ter um envolvimento amoroso pleno e verdadeiro. Claro que, se tornar adulto também não é sinônimo de maturidade para todos, e alguns adultos são mais “infantilizados” do que muitos adolescentes nestas questões, mas aqui tratamos de generalizações, do comum que ocorre, não de casos segmentários.
 
Ainda mais nossos adolescentes e jovens da atualidade, estes estão com maior dificuldade de amadurecimento, perto dos jovens de décadas atrás, pois destes eram exigidas posturas de adultos até mesmo na infância, e ainda mais quando adolescentes, quando muitos já casavam inclusive, e constituíam família, mas os nossos jovens atuais contam com proteção e cuidados dos adultos, e muitos começam a trabalhar bem mais tarde, tornando-se apenas estudantes e mantendo o ritmo casual destes.
 
Mas hoje a adolescência tem se estendido, inclusive para a idade adulta, onde encontramos pessoas que passaram dos trinta anos, mas continuam imaturos, principalmente nas questões de relacionamentos amorosos sérios.
 
Mesmo que tenhamos adolescentes mais responsáveis e mais maduros do que se espera nesta fase do desenvolvimento humano, existem as limitações cognitivas, psicológicas e afins, que distorcem a realidade e o conceito de responsabilidade para eles, bem como do que se trata o amor.
 
Aquele melodrama de que a pessoa prefere morrer do que vir a perder o ente amado, de que ‘sem você eu prefiro morrer’, de que ‘se não ficar comigo, não ficará com mais ninguém’, que ‘tu é meu’, são sinais de alerta, de possibilidade de doença e desequilíbrio psicológico, não se tratando, provavelmente, de amor de fato, ou pode ser características de relacionamentos infantilizados devido a imaturidade da pessoa, ou por ser ainda jovem demais, como ocorreu com o casal do famoso conto shakespeariano.
 
Aliás, quem ama não prende, mas deixa livre o objeto de amor, que mesmo não sendo possível ficar com ele, deseja o melhor para ele, pois no amor não existe posse, existe sintonia e desejo de vida plena.
 
Vou tentar explicar o que ocorre com a química no cérebro humano durante a paixão, e creio que, a partir daí, chegarão a uma conclusão melhor a respeito disso tudo, e ficarão mais alertas quando acreditarem que encontraram a outra metade da maçã, e que não conseguem mais viver sem ela, tomando assim mais cuidado com suas ações, se os hormônios permitirem também, é claro…
 
PAIXÃO pode ser nomeada cientificamente como um estado hipodapaminérgico, isto é, os circuitos de dopamina (vias mesolímbicas dopaminérgicas) tornam-se hiperativados, sendo assim, passamos a ficar muito motivados e repletos de prazer.
 
Mas toda paixão, apesar da intensidade dos fatores que vivenciamos durante seu período, não dura muito.
 
Cientistas atestam que costuma levar de 1 a 2 anos este estágio, portanto é um grande alerta para quem resolve se unir seriamente com alguém durante este período, pois geralmente não está agindo com a razão adequada, mas mediado por hormônios que o deixa impulsivo, não percebendo consequências, deixando obcecado, e não conseguindo enxergar a realidade enquanto tal, até mesmo pelo sistema intenso de recompensa que é brindado o cérebro neste período.
 
Diferentemente como é tratada na célebre obra (que é um verdadeiro tratado da arte de amar) O BANQUETE, de Platão, a ciência chega a considerar o estado de paixão como um período de demência cerebral, repleta de grande carga de estresse, convulsão e obsessão desmedida.
 
O amor paixão é consequência de alterações no funcionamento do nosso cérebro.
 
É através de substâncias químicas que promovem mudanças no nosso cérebro (hormônios e neurotransmissores), que sentimos a paixão, a qual é orquestrada por estes fatores endócrinos, fazendo com que sintamos falta da pessoa, só pensemos nela, a conceituemos como perfeita, tememos sua perda, fiquemos empolgados e fazemos loucuras em nome do amor paixão, entre outras atitudes clássicas.
 
Já percebeu como fazemos “besteiras” (muitas delas nos arrependemos muito, diante das consequências, depois do estado da paixão, é claro) quando estamos apaixonados?
 
É que quando estamos apaixonados, ocorre uma verdadeira INIBIÇÃO na nossa estrutura do CÓRTEX PRÉ-FRONTAL, que é a mesma coisa que acontece quando alguém bebe bebida alcoólica, bem como diante do uso de certas drogas e afins.
 
O que tem isso a ver? É que esta área, que fica na região de nossa testa, é responsável por analisar as consequência de nossos impulsos, desejos, etc., sendo uma espécie de razão, de consciência moral.
 
Como ela está “abafada” em seu funcionamento, temos a tendência de agir mais impulsivamente, sem controle, instintivamente, sem prever consequências de nossos atos, sendo por isso que muitos vão morar juntos com quem se apaixonaram, já nos primeiros meses, se não na primeira semana, ou até no mesmo dia, pois não conseguem medir a responsabilidade futura de seus atos por esta estrutura cerebral estar sem atuação adequada, somado a outros fatores como carência afetiva, modelos aprendidos de relacionamentos através do seu seio familiar e social, entre outras questões impulsionantes.
 
OXITOCINA, VASOPRESSINA e CORTISOL orquestram a sinfonia da paixão em nosso cérebro, e nos fazem ter sentimentos tão intensos e vivenciarmos loucuras, consideradas como tais depois que passamos por este período, em muitos dos casos.
 
Funcionam como NEUROPEPTÍDEOS, sendo ínfimos compostos químicos em determinados circuito de nosso cérebro em atuação maior a promoverem mudanças comportamentais radicais, bem como de pensamentos.
 
Através da oxitocina e da vasopressina, nos sentimos apegados com a outra pessoa, ligados nela feito nossa “cara metade”, a vemos como única para nós, como se não existisse no mundo outra melhor, e ainda nos faz sentir prazer de estarmos hipermotivados, devido ao circuito de recompensa acionado.
Destaco aqui, que oxitocina é considerado no mundo todo como O HORMÔNIO DO AMOR, e sempre digo que deveríamos ter uma injeção deste hormônio a ser injetado em muita gente por aí, e até em nós mesmos, muitas das vezes.
 
Referente ao PRAZER, temos em ligação ainda a DOPAMINA, que é um neurotransmissor que, durante o estágio da paixão, tem ligação com o prazer, além de ser responsável pela grande carga motivacional que sentimos, como de nos sentirmos mais vivos do que antes, dentro do mecanismo de recompensa.
Mas é claro que o prazer é uma questão deveras subjetiva, enquanto sensação.
 
Durante a paixão, os níveis de SEROTONINA caem, fazendo com que pensemos na pessoa amada até mesmo quando estamos tentando evitar pensar nela.
 
Isso tem a ver, tanto que é compatível com o que sentem as pessoas com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), que até tentam evitar certos pensamentos, mas estes persistem, e ao mesmo tempo querem mais e mais disso, assim como ocorre nas COMPULSÕES, tendo ligação deste mesmo hormônio em associação.
 
Em quem toma antidepressivos à base de inibidores seletivos da recaptação da serotonina, os quais promovem aumento dos níveis de serotonina, diminuindo as compulsões e manias, encontra-se mais afastado diante das possibilidades de se apaixonar devido ao uso deste medicamento.
 
Hormônio associado ao estresse, o CORTISOL, durante a paixão, tem seu nível aumentado, sendo que ele impulsiona: sentimento de empolgação; insegurança diante da perda do outro; ansiedade de ver a pessoa e vivenciar muitas coisas com ela; aumento dos batimentos cardíacos; esquecer de comer ao estar ao lado do ser amado, pois o sistema digestivo sofre transformação; ser acometido de insônia diante da agitação que passa a ter; sente frio no estômago (famosas borboletas no estômago); as pernas ficam bambas e o rosto pálido diante dos ser amado; que nada mais é devido ao sangue que passa a circular mais intensamente noutros lugares; sendo todos estes tópicos respostas aos estímulos de caráter estressante, tanto que temos este hormônio do estresse em associação, o cortisol, a agir com todas estas características, entre muitas outras afins.
 
Indico a leitura do livro POR QUE AMAMOS: A NATUREZA E A QUÍMICA DO AMOR ROMÂNTICO, de autoria da Ph.D antropóloga HELEN FISHER. Eu o li mais de 10 anos atrás, e não me recordo bem o conteúdo claramente, mas lembrei parte dele agora. Na época que o li foi muito bom para mim, e trata do que tenho sinalizado até aqui a respeito do amor romântico. Lembro que foi indicação do médico Dr. Rangel, o qual foi meu professor da disciplina de Neuropsicopatologia, que eu adorava, tanto que nunca faltei uma única aula em dois anos de curso, ministrada por este grande mestre, que para mim, foi o que de melhor a faculdade me presenteou, e que me fez continuá-la até o fim.
 
Paixão ou amor romântico, quando somos correspondidos, é quase sempre maravilhoso sentirmos, e aqui neste artigo não se está sinalizando algo contra ficar apaixonado, mas saber estar apaixonado é a dica que se quer deixar.
 
Entender que, quando estamos apaixonados, não vemos a pessoa como de fato ela provavelmente seja, mas projetamos uma idealização movidos por questões hormonais sim, mas também de nossa estrutura psicológica.
 
Muita gente não quer mais ver o CUPIDO por perto, de tanto que já se machucou diante de paixões vivenciadas, mas o que deve ser feito, não é negar a paixão, mas saber lidar com ela, entender seus mecanismos físicos e psicológicos em atuação, e então tomar atitudes mais coerentes.
 
Costumo dar o conselho aos jovens casais que não se casem antes de dois anos de namoro, em média, como também não procurem morar juntos até este período, pois a possibilidade de frustração pode ser imensa, ou ainda o processo adaptativo possa vir a ser bem penoso para ambos.
 
Falamos em dois anos, mas em alguns casos até mais, assim como podemos ter um amadurecimento para o casamento em menos de um ano, sendo que isso tudo dependerá sempre das estruturas de cada qual.
 
Relacionamentos que não deram certo, não devem ser vistos com pesar de terem ocorrido, mas como oportunidade de aprendizado. E muitos casais até se reencontram, décadas depois, e se casam, depois de um amadurecimento maior. Então, sem essa de amaldiçoar os relacionamentos anteriores, e muito menos a pessoa que um dia disse amar, pois se estavam um com o outro um dia, é que neste dia foi um com o outro que precisavam estar.
 
Também quero destacar que, muitas vezes, o apego exagerado, a dependência um doutro, o envolvimento intenso demais, pode não ter nada a ver com paixão e nem com hormônios, mas de uma estrutura psicológica deficitária, e de se ser carente em demasia e detentor de baixa autoestima.
 
Tanto que, para estes, não adianta mudar o par, pois praticamente todos os seus relacionamentos seguirão o mesmo enredo catastrófico, pois são substituídos os intérpretes da peça, e o palco até passa a ser outro, mas o script continua o mesmo, e é escrito por uma pessoa que precisa de autoconhecimento, autoanálise, psicanálise e afins, para barrar este sistema cíclico de relacionamentos doentios, complicados, abusivos e autodestruidores.
 
Então a paixão é acionada por componentes químicos em nosso corpo, somada a nossa estrutura psicológica, e se trata de algo natural e belo, quando fazemos disso algo bom para nós e para o outro.
 
O que seria de nós, humanos demasiado humanos, como diria meu amado Nietzsche, se não tivéssemos a experiência da paixão, o quanto sombria seria nossa vida neste contexto.
 
Paixão é como um licor que é agradável e nos deixa alegres, mas se nos entregarmos a ele sem autocontrole, e dele abusarmos, nos perdemos numa “embriaguez” devastadora.
 
Então, que tenhamos equilíbrio e visão de sabedoria para vivenciarmos a paixão, presente de nossa Mãe Natureza.
 
(conteúdo trabalhado em minha palestra A ARTE DO AMOR E DE AMAR)
 
Quem é o autor deste artigo: Carlos Alberto Hang, Psicólogo, Doutor e Mestre, Jornalista (SC03991); especialista/pós-graduado em psicologia do esporte, hipnose clínica, sexologia, dependência química, MBA em Liderança e Coaching, psicopedagogia, psicanálise, terapia cognitivo comportamental, educação infantil, e Ciências da Religião, com graduação também em Teologia, Filosofia, História, Letras e formação em hipnose transformacional; International Master Premium em Hipnose; Master PNL Practitioner (NLPEA Association of Excellence/USA); e escritor. Embaixador pela Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix (Genebra/Suíça), é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo, e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de MG na cadeira 148. INSTAGRAM: @carlosalbertohang TWITTER: @hangjornalista FACEBOOK: @opiniaodeumlivrepensadorbyHANG 

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