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Opinião: Carlos Alberto Hang: A subjugação de Adão

O desejo de pertencimento, de aceitação social e de se ter um lugar, é tão necessário e buscado pelo ser humano quanto a sua luta diária de fazer parte da massa e, ao mesmo tempo, não vir a perder a sua singularidade, onde neste meneio encontra a si mesmo por causa do outro, o qual estabelece o diferencial necessário para a sua existência ímpar se estabelecer e se sustentar como tal.




Aqueles que buscam presença num grupo e não conseguem fazer o retorno a si mesmos, perdem a si próprios, como se olhassem no espelho e não mais se reconhecessem como tais, mas se vissem como reflexo de si mesmos no outro, isto é, do seu grupo, onde teremos um sujeito sujeitado, em detrimento de uma busca por si mesmo hic et nunc.

 

Ao falarmos em vivência e pertencimento a grupos, vale a pena citar a visão psicanalítica de Wilfred Ruprecht Bion, o qual diz que, assim como é regido o indivíduo, o grupo também possui dois níveis de funcionamento psíquico, que se inter-relacionam entre si, que são o consciente e o inconsciente. O nível consciente é o de caráter racional, o qual é regido pelo princípio da realidade e é direcionado para que ocorra a adaptação objetiva à realidade externa. Já o nível inconsciente, é o emocional, o qual é regido pelo princípio de prazer e é utilizado para evitar o desprazer. Já Melanie Klein dizia que o grupo seria a representação do seio bom (expressão de sua teoria), pois ele sustenta a fantasia de seus participantes.

O ser humano busca o pertencimento a um grupo, onde o líder do mesmo, podendo ser um time de futebol para o qual se torce ou a seleção nacional que disputará a copa, passa a ter o papel de messias, carregado da promessa de trazer aos integrantes do grupo um sentimento de satisfação plena.

O torcedor crê na vitória de seu time, que tudo pode com ele ser alcançado e que os demais são ameaças que devem ser superadas, num sistema de projeção de satisfação e esperança. Muitos torcedores sentem-se como partícipes das vitórias do time que adotou para si, sendo que, diante das derrotas, sentem-se também derrotados e, os que não conseguem lidar com o sentimento de frustração gerada diante da perspectiva projetada sobre o time ou seleção de futebol não satisfeita, podem chegar à violência de diversas ordens, sejam elas de caráter psicológico ou até mesmo físico.

Geralmente, aqueles fanáticos torcedores e que atuam de maneira extrema diante de seu time, são pessoas que não se sentem capazes de obterem vitórias e conquistas enquanto vida particular, sendo assim, são impulsionados a adotarem a vitória do outro para si mesmos também, como maneira de lidar com suas necessidades mais arcaicas, como diria Bion, onde o torcedor busca evitar se autoprover diretamente, substituindo esta necessidade natural através do simbólico, no outro, sendo este o vencedor de fato.

Assim como ocorre no campeonato nacional de futebol, onde os times brasileiros concorrem entre si, bem como nos estaduais e no mundial, o sujeito inicia seu processo de pertencimento a um grupo específico em cada ocasião, pois todo grupo traz o sentido de pertinência aos seus membros, como se fosse uma família adotada, onde se sente protegido e como um verdadeiro membro aceito, e até podem surgir, devido ao sentimento de segurança que sente com o grupo, reações regressivas diante da perda ou da busca de ações afetivas, onde assume as diretrizes sinalizadas pelos mentores do grupo e diante da ameaça de perda ou sentimento de frustração ou humilhação, evocando a agressividade primitiva para defender seu território e o seu lugar conquistado, mesmo que simbolicamente o seja.

A agressividade é facilitada em grupo, pois seus membros tem a sensação de serem um todo, um ser que se perde no seio coletivo, sendo assim, com o sentimento de responsabilidade por seus atos destituídos do caráter individual, sendo que é por isso que vemos cenas patéticas de violência diante de grupos de torcedores rivais quando ocorrem ameaças ou humilhações sentidas, sendo estas deveras simbólicas, mas que vão ao encontro das verdadeiras questões internas dos torcedores.

Mas se compreendemos o homem rousseauniano natural como aquele ser solitário, o qual se movimenta unicamente pelo impulso necessário de autoconservação, o que seria esta necessidade urbana contemporânea de pertencimento imperioso a um grupo social segmentado que não o de uma tentativa de preservação de si mesmo onde, não conseguindo haver-se com suas questões no campo singular, necessita buscar suporte no pertencimento ao que está fora e simbolicamente deveras maior em ações deste outro que adota para si, quiçá para mediar suas questões numa relação de duplicidade interseccionada, pelo menos até sua própria superação neste contexto?

Sim, somos seres sociais e, como tais, nos humanizamos, mas é o grau de necessidade de pertencimento e de subjugação a um grupo, bem como o modo com que lidamos e nos projetamos nesta relação, que poderemos ter um sinalizador de um estado patológico ou não desta ação.

 

 

 

 

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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Carlos Alberto Hang
Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931/SC) e jornalista (03991/SC), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz - Genebra - Suíça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville - Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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