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Opinião: Carlos Alberto Hang: Mitomania, a mentira e o mentiroso

Segundo o Dicionário Internacional de Psicanálise, mentira é uma dissimulação ou deformação voluntária de um conteúdo de pensamento ao qual o sujeito confere o valor de uma verdade, a mentira só se exerce em face de um outro ou em função de clivagem do próprio sujeito que pode, então, “mentir para si mesmo”.




Todos nós mentimos muito mais do que possamos anuir que sim, sendo, algumas vezes, uma forma de sobrevivência social. Mas por que mentimos? Até quando a ação de mentir deixa de ser considerada um sintoma? Enganar compulsivamente seria uma patologia? E quando o mentiroso tem consciência da mentira que conta, quais seriam suas intensões?

O político alemão e Ministro da Propaganda do Reich, na Alemanha Nazista (1933 a 1945), Paul Joseph Goebbels, dizia que “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade“, sendo confirmada esta tese na história da humanidade desde os tempos mais remotos até nossos dias.

Um exemplo é o da suposta “maçã” que Eva teria oferecido a Adão no Jardim do Éden, sendo considerada o fruto proibido. Esta história se encontra no livro bíblico de Gênesis, o qual não diz que se trata de maçã, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, logo, de tanto ser contado este acontecimento usando como imagem figurativa a maçã, retratada em quadros e esculturas, muitos acreditam ser a verdade mais pura.

Outro exemplo se deu quando o cineasta estadunidense, George Orson Welles (1915-1985), produziu uma transmissão radiofônica da obra “A Guerra dos Mundos”, escrita por Herbert George Wells, provocando verdadeiro pânico na população ao relatar que uma invasão de extraterrestres estaria ocorrendo no planeta.

Crianças a partir dos 2 anos de idade já contam mentiras de forma bem convincente, tratando-se de um processo natural do amadurecimento cerebral, sendo um sinal de que seu desenvolvimento cognitivo está acontecendo a contento.

Crianças que aprendem a mentir desde a mais tenra idade tendem a se tornarem adultos prósperos profissional e socialmente, conforme pesquisa promovida pelo diretor do Instituto de Estudo da Criança da Universidade de Toronto, Kang Lee.

Mentir aciona vários processos cerebrais ligados ao desenvolvimento das regiões do cérebro responsáveis pelas funções consideradas nobres, como o raciocínio e pensamento de ordem superior, unindo diversas informações e manipulando dados para que se obtenha alguma vantagem. Mesmo sendo um bom funcionamento cerebral, faz-se necessário que os pais orientem a respeito da importância da honestidade, que depois de incorporada, usarão para bons fins esta agilidade peculiar que se dá pelo mecanismo da mentira.

Mesmo sem querer, os adultos ensinam as crianças a mentir, como sobre a existência do Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, surgimento dos bebês, para onde vão aqueles que faleceram, contos de fada, etc. Claro que são importantes e fazem parte do processo evolutivo, sendo mentiras aceitáveis socialmente e algumas são usadas para encobrir verdades que a criança não tenha condições de compreender em sua integralidade.

Às vezes mentimos por não querermos negar algum pedido, dando desculpas fantasiosas para que a situação fique menos negativa entre os pares, maquiando verdades ou por omissão, seja para sermos aceitos socialmente ou para não magoarmos outras pessoas. Neste contexto entra a omissão da verdadeira orientação sexual, sobre alguma ação do nosso passado, entre outras que tem como intuito fugirmos do julgamento da sociedade. Mário Quintana dizia que “A mentira é a verdade que esqueceu de acontecer”.

Existem 3 tipos de mentiras: a institucionalizada (promovedora da arte de viver em harmonia); a fisiológica (com má intenção); a patológica (mitomania). Mitomania, etimologicamente diz respeito a mania de contar histórias fabulosas, repletas de fantasias, mentindo compulsoriamente.

O mitômano geralmente mente em condições específicas, principalmente a respeito de seu mundo interno e diz respeito ao desejo de que fosse da maneira como fantasia. A principio não tem intenção de causar dolo e não se trata de algo real,  mas acaba perdendo a credibilidade dos demais por contar muitas mentiras, necessitando passar por tratamento psicoterapêutico e, talvez, também psiquiátrico.

Precisa-se, antes de mais nada, ser diagnosticado, pois mentir geralmente não passa de sintoma de outra patologia, podendo ser comorbidade de uma depressão, por exemplo. Mentir não é um transtorno mental, mas pode ser um desequilíbrio psíquico e se trata de um sintoma. O diagnóstico deve ser buscado diante da questão que revela a real necessidade de mentir.

Quem mente com regularidade pode ter baixa autoestima, sentimento de inferioridade e insegurança pessoal, utilizando a mentira como meio compensatório. Alguns mentem a respeito de algo que gostariam que fosse diferente. Por exemplo: uma criança que sofre violência física ou psicológica em casa, pode afirmar na escola que seus pais são maravilhosos e que é muito feliz em casa. Alguns podem dizer que são o que não são ou que possuem o que não tem, pois gostariam que fossem diferentes ou que tivessem o que não possuem.

Existem várias formas de detectarmos um mentiroso: a pessoa dá poucos ou muitos detalhes sobre o que conta; um dos ombros e sobrancelhas ficam altos; pisca muito; sudorese; entonação vocal; repete a pergunta feita para ter tempo de pensar numa resposta; poucas expressões faciais quando sorri; reforça que está dizendo a verdade; fala com  comportamento diferente do enredo contado; relata muitos detalhes insignificantes diante do fato principal; se contradiz quando não conta a história cronologicamente; se perde ao contar o evento principal; pobreza de gestos e emoções no relato; tapa a boca com as mãos; sente coceira ou toca o nariz; esfrega os olhos; pega na orelha; coça o pescoço; afrouxa o colarinho; dedo na boca; alisa o queixo; coça ou bate na cabeça; punhos fechados; mãos dentro do bolso; balança, cruza ou descruza as pernas constantemente; fica tempo maior que o usual com os olhos fechados, etc. Na imagem acima temos um gesto usual típico de quem está mentindo ou omitindo a verdade.

O ditado “mentira tem perna curta” é confirmado quando nos aprimoramos na leitura de incongruências corporais e sonoras cometidas pelo que mente. Os mentirosos são como os atores pois ambos aperfeiçoam suas ações quanto mais as exercitam.

Os atores se tornam cada vez mais convincentes quanto mais representam, assim ocorre com os mentirosos de plantão. A diferença entre ambos é que os das artes cênicas encenam uma mentira aceita socialmente, e os mentirosos tendem a tirar proveito com suas ações.

Seja como for, somos todos mentirosos por natureza e as pessoas mentem diariamente para nós, passando a níveis preocupantes somente quando o intento está para além das convenções sociais e quando deixa de ser consciente, tornando-se vício e ato compulsivo incontrolável.

 

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.

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Carlos Alberto Hang
Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931/SC) e jornalista (03991/SC), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz - Genebra - Suíça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville - Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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