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Opinião: Carlos Alberto Hang: laços afetivos

Harry F. Harlow (1905-1981) foi um psicólogo norte-americano notavelmente conhecido devido às suas experiências com macacos Rhesus em busca de respostas diante da privação de caráter social e maternal, demonstrando o quanto são importantes o conforto e o cuidado, mas destacando a necessidade também de laços afetuosos nas primeiras etapas do desenvolvimento dos bebês.




Harlow usou em suas pesquisas macacos recém-nascidos separando-os de suas mães, os quais teriam que escolher entre duas mães artificiais feitas de arame, sendo uma coberta com tecido confortável e sem comida e outra só de arame e com alimento.

Os bebês macacos escolhiam a mãe mais confortável, mesmo que esta não tinha alimento, sinalizando assim que a necessidade de conforto passa a estar à frente das necessidades fisiológicas propriamente ditas como tais. Mas seja como for, devido a serem afastados de suas genitoras e mesmo tendo conforto, cresceram agressivos pela falta de cuidados como amor, afeto, carinho, cuidados relacionais. E conosco não é diferente, conclui a preciosa pesquisa que sinaliza à importância ímpar de laços sociais para um desenvolvimento neuropsicológico adequado para todos nós desde o nosso nascimento.

Quando um ser humano é privado de afeto e cresce com laços sociais deficitários, poderá ele ter grandes chances de estar em dificuldades quanto ao trato social. O conhecido “hormônio do amor”, oxitocina, é uma substância química cerebral importante para nosso desenvolvimento enquanto humanos, além de ser um hormônio que nos auxilia na constituição de nossos vínculos sociais, logo, quando ocorre negligência diante de contatos humanos afetivos enquanto os primeiros anos de vida, quando adultos possivelmente terão maior dificuldade relacional, pois o cérebro humano é moldado com o cuidado, com o amor e as primeiras relações humanas em especial e é este contato afetuoso o ingrediente necessário para acionar o hormônio oxitocina.

O ser humano tem uma espécie de programação que o direciona a necessidade de se conectar com outros seres humanos, tanto é que parece que todos nós buscamos efetivamente sucesso em nossas relações interpessoais e sofremos deveras quando não as conquistamos.

Devemos entender que o processo de vinculação inicia desde a mais tenra infância de cada um de nós, sendo nossa primeira vinculação afetiva permeada na relação com nossos genitores ou cuidadores. Estudos em universidades americanas afirmam que filhos adotados que permaneceram maior tempo num orfanato podem ter maiores dificuldades em estabelecerem laços afetivos sociais, inclusive com os pais adotivos.

Um bebê precisa muito mais do que alimento, trocas de fraldas, conforto e higiene pessoal, ele precisa de contato humano, de atenção, de se sentir protegido com a presença doutras pessoas.

Crianças que passam muito tempo solitárias em seus berços e são deixadas chorando por longo período de tempo sem contato de seus cuidadores tendem a aprender com isso a indiferença, pois sentem que não são percebidas, não ligam para elas, que elas não têm quem as possa confortar e as proteger, chegando à fase adolescente ou adulta com maiores receios de contatos afetivos do que outros que, enquanto crianças, tiverem melhores laços e cuidados considerados adequados.

É muito importante para a saúde do ser humano estar ele vinculado afetivamente com outros seres humanos, até mesmo diante de problemas que enfrenta, facilitando a retomada da vida devido aos contatos sociais e afetivos. Vale aqui destacar que não é problema insuportável o ser humano sofrer, mas sofrer sozinho passa a ser uma grande problemática.

A interação recíproca é de relevante importância ao bebê. Quando a criança é negligenciada diante do cuidar, enquanto adulto terá dificuldade de se relacionar, como já foi mencionado acima, mas também acabará sofrendo sozinha devido à desconfiança que criou diante de contatos com terceiros, podendo se sentir solitária mesmo estando numa multidão, tendo ampla dificuldade de criar vínculos.

Mas nem sempre crianças que tiveram defasado contato afetivo tornar-se-ão adolescentes e adultos tímidos e isolados, estereotipados como depressivos por muitos, mas podem ter uma postura agressiva, onde invadem o espaço pessoal das pessoas com quem tentam contato social, mesmo que não se deem conta disso, tendo ainda dificuldades de limites e promovem brincadeiras descontextuais ou desagradáveis com quem tentam estabelecer contato, somando interações sociais frustradas para elas e para os demais que tentam acolhê-las num laço afetivo.

Nós aprendemos no nosso próprio lar as primeiras e mais importantes lições de como devemos nos relacionar com os demais, por isso percebemos as dificuldades que algumas pessoas têm em manterem laços afetivos quando em seus lares existe uma ampla dificuldade de manifestações afetuosas, de cuidados e de comunicações entre seus pares, valendo lembrar que não se trata de declarações desmedidas de amor ou admiração, mas de uma leitura afetuosa de atos diários promovidos no eixo familiar.

Interessantes são algumas pesquisas que mapearam as áreas do cérebro que são ativadas nas relações pais e filhos, com as quais descobriram que ocorre mudança cerebral dos pais diante de seus filhos, bem como dos filhos quando estão diante de seus pais.

Não é à toa que a punição mais severa para um prisioneiro venha a ser a solitária, podendo chegar a “enlouquecer” o punido se permanecer por longo período de tempo nesta situação. Lembro aqui de como sobreviveram soldados americanos presos por anos como reféns durante a guerra do Vietnã, os quais foram encarcerados em solitárias, mas sobreviveram por criarem uma forma de comunicação com o humano da cela ao lado, mantendo diálogo via batidas na parede, sendo que até um prisioneiro ensinou o idioma francês para o outro através deste método. Este primitivo contato humano foi o suficiente para salvaguardar a sanidade mental dos presos, os quais ficaram quase uma década nesta situação.

Entende-se a necessidade peculiar do ser humano em manter laços sociais e afetivos em sua vida pró sua própria saúde mental, parecendo premente nós repensarmos o distanciamento que temos tido destes tipos de contatos humanos, onde temos permanecido mais tempo num mundo virtual ou solitário do que despendendo energia em busca de relações humanas menos superficiais.

No próprio seio familiar a comunicação tem sido demasiadamente deficitária, seja pela falta de interesse no outro, seja por estarmos mergulhados numa busca de melhorias matérias em detrimento do que realmente importa para a saúde do corpo e da mente. Procuremos investir mais na busca de novos laços afetivos, bem como fortalecer aos que já temos.

Pode ser piegas dizer que “nenhum homem é uma ilha”, mas isso deixa bem claro que não é possível estarmos bem somente sozinhos, pois precisamos do contato humano de fato assim como do ar para vivermos.

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.




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Carlos Alberto Hang
Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931/SC) e jornalista (03991/SC), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz - Genebra - Suíça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville - Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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