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Opinião -Carlos Alberto Hang: Seres invisíveis e solitários…

Nunca se teve outrora tanta facilidade em comunicação, em sermos vistos e em termos
contato com inúmeras pessoas em espaço ínfimo de tempo. Na Internet, por exemplo,
colocamos nossa opinião e a mesma passa a ser vista e comentada em segundos.

Mas por qual motivo tantas pessoas ainda se sentem tão solitárias e, por que não dizer,
invisíveis? Diversos usuários de redes sociais têm centenas de amigos virtuais, mas se
sentem solitários.

Cada dia se sabe mais a respeito das pessoas e diariamente se
deparam com muitas delas, mas parece que este saber e contato estão diretamente
proporcionais ao afastamento relacional enquanto real entre seus pares.
O ser humano, desde seu nascimento, busca seu lugar, primeiramente no seio familiar e depois no eixo social.

Precisamos, mais do que vermos e sermos vistos, sermos reconhecidos em nossa individualidade. Um animal não se incomoda em estar num bando e sobre ele perder seu lugar de destaque, mas o ser humano não suporta ser um número perdido numa multidão, ele precisa de uma identidade própria e teme à sua perda, receia ser dissipado diante da imagem do outro e se ver castrado por ele. Mesmo enquanto adultos, continuamos feito a “Sua Majestade, O Bebê” a desejar atenção do mundo sobre nossas demandas de amor.

A vida urbana tem promovido uma possível dificuldade em fazer o indivíduo ser visto e  reconhecido em sociedade e sufoca o ser individual diante do coletivo. Quando se vivi numa cidade pequena, sabe-se de qual família fazem parte o padeiro, o carteiro e os professores dos filhos, por exemplo, e cada qual é tratado pelo nome e não pela
profissão à qual pertencem.

Seus moradores se sentem como se morassem com a grande família formada por toda a sociedade. Já em grandes centros urbanos as pessoas se perdem dentro das multidões. Mesmo morando décadas no mesmo local, mal sabem  o nome do vizinho que reside ao lado, salvo se este promoveu algum problema ou se precisou dele

Quando adentramos num Shopping Center nos deparamos com uma multidão de andantes que parecem cegos, surdos e mudos diante dos que passam ou que estão bem ao lado. Caso alguém busque conversar com uma pessoa numa fila de um  caixa de banco, pode ser visto como estranho ou que esteja “cantando” o outro sexualmente.

Podemos sinalizar aqui que, até mesmo nas próprias famílias, o distanciamento tem
ocorrido, onde a comunicação se dá através de meios virtuais ou telefônicos e se sabe de suas ações através das redes sociais. Visitar, já parece ser um verbo considerado
démodé, até mesmo nas datas natalícias, onde parece satisfazer as regras de boa etiqueta o parabenizar ao aniversariante via Internet.

Um dos estilos literários mais vendidos nas livrarias está o de autoajuda, principalmente numa busca de suplantar os sintomas de solidão e depressão. Os templos religiosos estão cada dia maiores e ficando repletos de “fiéis” que buscam um pertencimento a um grupo e o preenchimento de um vazio interior promovido pela falta de si mesmo, mas até os contatos com os líderes religiosos estão distantes, ou os fazem pela própria Internet ou restritos estão a um contato efetivo, assim como existe em geral um abismo relacional entre os próprios fiéis que frequentam constantemente a Igreja, como se estranhos fossem uns aos outros.

Nas escolas, estudantes passam um ano ou mais estudando com as mesmas pessoas e, muitas vezes não sabem o nome delas ou peculiaridades de suas vidas. Seus professores são chamados apenas de “professores” e pouco se tem interesse em saber algo do humano que está para além do profissional que ali se encontra, quando as próprias regras impostas pela suposta “ética profissional”  pede distanciamento para evitar distorcerem verdadeiros bons intentos. Nas empresas, mesmo que os trabalhadores promovam eventos de “confraternização” em datas especiais, estes podem ser formalizados e maquiados de um contato mais íntimo, onde prevalece o sistema de entretenimento.

Percebemos que, mesmo com tanta comunicação possível, temos perdido o dom de nos comunicarmos. Parece que as pessoas não sabem mais conversar, promover um bate papo que vá para além das participações em “chats” ou sobre trivialidades. Muitos indivíduos falam horas diariamente pela Internet, mas quando estão em contato direto com estas pessoas, parecem emudecerem e ficarem envergonhados ou perdidos diante do mundo das palavras possíveis de serem ditas, até mesmo de um simples e usual “como vai?”, quando não fazem de conta que não às viram.

Mesmo com tanta dificuldade relacional, a demanda de pertencimento e de
reconhecimento continua vibrante em cada ser humano. Muitos pagam caro para serem vistos e reconhecidos socialmente, seja assumindo um personagem na sociedade, seja gastando suas horas investindo em algo que os retire do meio da multidão e os dê o desejado destaque.

Parece estar havendo um investimento externo como nunca se viu durante a história da Humanidade sobre esta busca de tal aparecimento e reconhecimento. Gastam-se fortunas com roupas de grifes, carros cada dia mais sofisticados, bens de consumo supérfluos, tratamentos estéticos sem medida, participação em eventos e festas, fanatismo religioso ou esportivo, entre outros meios onde se procura suplantar a solidão, além desta busca do pertencimento e reconhecimento.

Mesmo que muitas pessoas estejam se sentindo solitárias e invisíveis, mesmo vivendo em meio à multidão, parece que estes mesmos indivíduos permanecem resistentes aos relacionamentos mais intensos e menos superficiais, numa espécie de autodefesa diante de um suposto perigo, enfrentamento ou sofrimento. Parece que o ser humano tem criado uma verdadeira fobia do próprio ser humano enquanto contato social maior.

O que nos torna humanos não é termos nascidos como tais, mas o contato com o outro, com O Grande Outro lacaniano. Nosso inconsciente é o próprio discurso do Outro, assim como o desejo é o desejo do Outro, mas mesmo assim sendo precisamos nos ver para além deste Outro para que não nos percamos ou nos confundamos com ele. A maravilhosa Clarice Lispector afirma que “… o que o ser humano mais aspira é
tornar-se ser humano”, e este caminho é a convivência com O Outro.

Nosso
aprimoramento está na convivência com a diversidade humana e disso não devemos
temer, mas buscarmos. Carlos Drummond de Andrade dizia que “Ninguém é igual a
ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar” e é com este diferente de nós que
encontramos nossa maneira peculiar de ser e nos reconhecemos como seres unitários e, como tais, necessitamos deste reconhecimento e tememos perder estas características diante de uma multidão.

Não busco aqui salientar algum aforismo para finalizar este assunto, mas deixar em aberto uma reflexão maior a respeito. Podemos usufruir das palavras de Friedrich Nietzsche ao dizer que “Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia…”, logo, parece que isso tem ocorrido demasiadamente em nosso tempo, principalmente nas relações virtuais, onde muitos dos amigos adentram a vida dos demais, mas não se tornam verdadeiras companhias, fornecendo uma falsa impressão de amizade e com a qual se poderia contar decididamente.

Assim como no meio virtual, têm ocorrido estas relações superficiais no ambiente
laboral, entre familiares e noutros relacionamentos que mais tem promovido solidão do que preencher a necessidade de acolhida e segurança buscada nos convívios humanos.

Você tem se sentido solitário ou invisível na sociedade? As pessoas o reconhecem para além do seu “ter”, da profissão que abraçou como sua e dos papeis sociais assumidos?

O ser humano que esta para além disso tudo é percebido ou está invisível aos olhos dos demais? Precisamos nos ver mais e sermos vistos de fato para muito além do mundo das aparências do ego e da sociedade.

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo).
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