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Estudo mostra polvos usando lixo como abrigo no fundo do oceano

abril 18, 2022
Estudo mostra polvos usando lixo como abrigo no fundo do oceano
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Polvo de espécie não identificada usando um pote vidro como abrigo nas Filipinas. Foto: Brandi Mueller

Latinhas, garrafas, potes, objetos plásticos diversos, e até bateria e vaso sanitário. Em todo o mundo, polvos estão usando lixo humano para se abrigar e para colocar ovos. É o que revela um estudo conduzido por um grupo que reúne pesquisadoras das universidades federais de Santa Catarina (UFSC), do Rio Grande (Furg) e de Pernambuco (UFPE) e da Università degli Studi di Napoli Federico II, na Itália.

 

A pesquisa, publicada na revista científica Marine Pollution Bulletin, avaliou 261 imagens subaquáticas tiradas em pelo menos 19 países entre 2003 e 2021. Vídeos e fotos coletados de redes sociais e de bancos de imagens foram somados a materiais fornecidos por cientistas e a outros recebidos por meio de campanhas internacionais promovidas pelas pesquisadoras, em uma abordagem de ciência cidadã. O objetivo era determinar como os polvos se relacionam com o lixo marinho e identificar espécies e regiões afetadas.

Foram detectados oito gêneros e 24 espécies de polvos que vivem perto do fundo do oceano interagindo com lixo. Na maior parte dos casos, utilizando-o como abrigo. A professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC Tatiana Silva Leite, coautora do estudo, explica por que isso ocorre: “O polvo perdeu a concha na evolução, então ele sempre está procurando um local para proteção. Espécies pequenas de polvos normalmente usam conchas, e as conchas estão desaparecendo, tanto por retirada quanto pela questão da acidificação dos oceanos”.

Além de entrarem nos objetos descartados para se esconder, os polvos também usam os resíduos para tapar suas tocas. “Ele normalmente coloca pedrinhas, coisas assim, para fechar um pouco a entrada da toca contra predadores, e a gente também viu eles usando lixo para fechar a frente da toca”, explica a docente. Houve, ainda, sete registros de fêmeas usando o lixo para proteger seus ovos.

 

Polvo da espécie O. americanus retirado de uma bateria no Rio de Janeiro. Foto: Caio Salles

Mais de 40% das interações foram com objetos de vidro; cerca de 25%, com plástico; e metais estiveram presentes em aproximadamente 18% dos registros. Algumas situações, entretanto, revelaram-se especialmente preocupantes. Um polvo foi encontrado escondido dentro de um vaso sanitário jogado no oceano, e outro foi flagrado se abrigando em uma bateria, “não se sabe se de carro ou de barco. É um lugar que tem metais pesados. Isso é perigoso”, afirma a professora. “São coisas inesperadas, né, que a gente nem sabe que estão lá”, adiciona.

Mesmo em grandes profundidades, o cenário se repete. “A gente trabalhou com uma pesquisadora da Itália, que coletou algumas imagens através de um submersível. E lá também foi chocante a quantidade de lixo, principalmente restos de material de pesca, com que os polvos estavam interagindo”, conta Tatiana.

Polvo pigmeu

Paroctopus cthulu, o polvo pigmeu, até o momento só foi visto usando lixo para abrigo. Foto: Ed Bastos

Outro caso que chamou atenção foi o do polvo pigmeu – a menor espécie conhecida no Brasil, com menos de 10 centímetros de comprimento. De nome científico Paroctopus cthulu, o animal foi descrito em 2021 pela professora Tatiana Silva Leite e outros pesquisadores e, até agora, só foi visto usando lixo para abrigo. Não há qualquer registro oficial dele se alojando em itens naturais, como conchas ou cascas de coco.

Foi no meio do lixo, aliás, que ele foi identificado pela primeira vez, em Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ). “Quem chamou a gente, para ir averiguar que espécie era, foi o pessoal que faz limpeza de praia, limpeza de oceano. Estavam retirando o lixo, levaram para o barco, e, de repente, começou a sair um monte de polvinhos de dentro do lixo”, relata Tatiana.

Enquanto o ambiente estava repleto de latinhas e garrafas de cerveja, o grupo não encontrou nenhuma concha compatível com o animal. “Ou seja, realmente deve estar acontecendo uma retirada dessas conchas ao longo do tempo pelos turistas, para fazer artesanato, levar para casa… Ou a questão mesmo da acidificação. A gente não sabe até que ponto isso já está prejudicando a formação das conchas”, enfatiza a professora.

Riscos e cuidados

O estudo traz um alerta sobre o aumento da quantidade de lixo nos oceanos e seus impactos na vida marinha. Inicialmente, pode até parecer algo positivo: os polvos estão se adaptando, aproveitando novas tocas que são introduzidas no ambiente. A interação com o lixo, contudo, pode trazer diversas consequências prejudiciais. Plásticos, por exemplo, contêm uma série de elementos tóxicos. “E a gente não sabe o quanto aquilo está entrando, por exemplo, no ovo que está sendo colocado ali; o quanto o animal, em vez de usar uma concha, que tem um determinado tamanho, para colocar seus ovos, usar uma lata que está enferrujada vai prejudicar tanto a quantidade de desova quanto a qualidade dos ovos”, comenta Tatiana.

Ovos de Paroctopus cthulu depositados em um bocal de snorckel, em Ilha Grande (RJ). Foto: Ricardo Dias

Outra reflexão importante diz respeito à escassez de tocas naturais. “Ficou muito claro que essa retirada, a compra de artesanato com conchas, levar para casa, é um erro. Essas conchas vazias são reutilizadas, não só por polvos, mas também por caranguejinhos que precisam dessas conchas. Também já foram vistos outros animais, como caranguejos, usando tampas de garrafas porque não conseguem encontrar uma concha. Isso é muito triste”, salienta a professora.

O artigo evidencia, também, a necessidade de precauções especiais ao se realizar ações de limpeza nos mares. “Foi justamente assim que a gente achou o animal. Foi retirando o lixo, os animais começaram a sair e não tinham para onde ir”, diz Tatiana. Os trabalhos de conscientização da população e de retirada de lixo dos oceanos são essenciais. É preciso, porém, treinar as pessoas que fazem esse tipo de serviço para se atentarem a bichos que possam estar em meio aos materiais. “Fica aí uma luzinha de alerta para esse tipo de atividade. É super importante a retirada, mas também o cuidado que se tem que ter com esse aumento de animais que estão utilizando esse lixo marinho como abrigo, como proteção”, enfatiza a pesquisadora.

Próximos passos

Polvo da espécie Amphioctopus burryi se esconde em uma lata de refrigerante na Bahia. Foto: Claudio Sampaio

Algumas questões ainda ficaram em aberto. As consequências do contato com substâncias tóxicas, como plástico e metais pesados, para a saúde dos animais estão entre os aspectos que as pesquisadoras planejam investigar em seus trabalhos seguintes. Outro ponto central é entender se há alguma preferência dos polvos por determinados resíduos. “Será que ele voltaria a ocupar uma concha? Se voltasse a ter a concha, ele largaria o lixo? É uma preferência ou ele não está tendo muita opção? São perguntas que ficaram ainda do estudo”, comenta a professora.

O grupo também pretende executar projetos relacionados ao polvo pigmeu. “A gente quer entender um pouco melhor essa espécie e tentar reintroduzir no ambiente as conchas naturais, para que esse animal pare de usar lixo. E também fazer um trabalho com a população, para que parem de ficar jogando essa quantidade de lixo naquela região, e servir como exemplo de que a gente pode também trazer uma restauração para o ambiente e mudar o comportamento das espécies que estão se adaptando ao lixo marinho”, complementa Tatiana.

Camila Raposo/Jornalista da Agecom/UFSC

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