Sexta, 24/09/2021
Joinville - SC
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Em muitos núcleos de práticas esportivas existe o que eu nomeio de CULTURA ALIENANTE DE MEDIOCRIDADE E DE BAIXO RENDIMENTO E DERROTA, a qual, assim como a CULTURA DO SUCESSO E PROSPERIDADE COM ALTO RENDIMENTO, é construída social e psicologicamente naquele determinado grupo afim. Aqui vamos tratar do primeiro conceito.

É um processo lento de construção conceitual que vai criando raízes profundas, e de difícil reversão, pois se torna cultural, e pior, é NATURALIZADO, como se diz em sociologia, tanto o conceito quanto a prática decorrente dele.

Vamos dar como exemplo um time de futebol que esteja inserido neste contexto. Ele toma para si, mesmo que inconscientemente, as diretrizes acionárias que impulsionam um rendimento medíocre e derrota constante, maquiados por falsas esperanças de melhora, até mesmo propagados pelo marketing contratado para tal.

Quando vence, geralmente é devido a competir com um time de nível inferior ao seu, ou obra do mero acaso, onde o time adversário, por diversas razões, perde-se no jogo e o entrega para a vitória alheia. Então se comemora como se fosse uma conquista tal vitória, alimentam a alienação da mediocridade, acreditando que se trata de reforço positivo para a equipe, sendo tal um elo de negação da própria realidade em que estão inseridos, e o máximo que devem conseguir é uma animação superficial seguida de frustração diante da realidade a ser enfrentada.

Diante dos resultados de perda constante, costuma-se, num ato geralmente patético e inoperante, mudar-se de técnico, como se esta fosse a mola propulsora diretiva de novos e melhores horizontes a se vislumbrar, que geralmente não o é, acarretando em seguida novas trocas de equipe técnica, num jogo cíclico e de roleta russa.

Outra questão é a contratação de novos jogadores, e alguns realmente talentosos e que poderiam fazer a diferença, e que até se apresentam impulsionados a lutar pelo time de fato. Mas a cultura inserida da mediocridade operacional do time, bem como a representação dele na sociedade e nas próprias categorias, tendem a minar o talento do contratado, deixando este de atuar como poderia e deveria, pois estas forças culturais e psíquicas o atrapalham.

Temos atletas bons contratados, e que são detentores de consciência do que representa tal time, mas o usam apenas como ponte para algo maior, sendo destaque e elevam o nível do time enquanto nele atuam, mas na primeira oportunidade, lançam-se ao destino que buscam de fato, algo mais representativo para sua carreira.

Outro fato é a própria imprensa e comentaristas esportivos que analisam os resultados do time pela ótica da paixão de torcedor, e não pela razão jornalística em si, que aliás, geralmente não faz parte de sua própria formação profissional. E assim alimentam este estado de mediocridade constante, num debate superficial diante da realidade.

E ainda temos os torcedores mais fanáticos, que são como aqueles pais que percebem que seus filhos não estão se dedicando aos estudos e afazeres domésticos ou levando a vida de maneira a não promover bons resultados futuros para eles, mas ai de quem os criticar e apontar tais condições limitantes.

Ainda sobre torcida, e também comentaristas esportivos, temos aqueles que mantém uma fixação conceitual nos sucessos do time de outrora, muitas vezes passado décadas de tais, e feito o clássico MECANISMO DE DEFESA, chamado NEGAÇÃO, negam-se a aceitar a situação atual do time, o que alimenta a continuidade da mediocridade do mesmo.

Mas então, o que fazer? É proeminente a presença de um psicólogo do esporte especializado e conhecedor pleno desta realidade, que inicie um trabalho de inversão conceitual, seja tratando dos atletas, seja da comissão técnica, seja de toda estrutura operacional significativa.

Trata-se de um trabalho demorado, mesmo que não tão quanto foi lenta também a construção desta cultural alienante da mediocridade também.

Vale aqui destacar que o psicólogo do esporte não é um mágico, e muito menos um operador de milagres, mas trabalhará com a ciência do comportamento, e os resultados que advirão não são somente desta fonte, mas também de uma postura de tudo que envolve, como equipe técnica, atletas, imprensa, torcedores, e até mesmos dos dirigentes.

Tudo está intercalado e todos devem atuar da melhor maneira em suas áreas, mesmo que seja o psicólogo o profissional que mais interage com todos, participando ativamente de todos os processos do time, inclusive presentes nas viagens competitivas.

Mas enquanto os diretores de times de futebol, como no exemplo aqui destacado, não compreenderem da importância de um psicólogo do esporte em sua equipe técnica, bem como não investirem pesado neste profissional aqueles que os contratam, pouco melhorará. Também será inoperante investir inadequadamente num profissional desta área, que não seja contemplado com seu real valor, e ainda que venha a promover as tais patéticas palestras motivacionais como carro chefe de suas ações.

Outra questão para finalizar, é a visão limitante e amadora dos responsáveis por times de futebol. Até entenderem da importância e necessidade de um psicólogo do esporte em sua equipe, e também que não postergam tal contratação para quando o caixa estiver melhor, que seria a mesma coisa que uma loja com problemas de caixa devido ao baixo movimento, cortar a verba da mídia, a qual atrairia maior clientela e poderia mudar a situação em que se apresenta atualmente.

Quantos times de futebol, como o citado acima, encontram-se nesta estrutura, e não conseguem sair do lugar? Apenas os que promoverem o abandono do pseudoprofissionalismo atual (que até foi outrora considerado enquanto profissional, mas que hoje é visto como amador diante da realidade esportiva que vivemos no século 21, principalmente internacional e dos grandes times), poderão galgar melhores perspectivas de sucesso e saírem da mediocridade e fábrica de sonhos não realizados que promovem até então, indo para uma realidade de possibilidades de melhoras consideráveis na atuação.

(conteúdo trabalhado em minha palestra ESPORTE & PSICOLOGIA: um casamento perfeito e necessário)

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