Sexta, 24/09/2021
Joinville - SC

Coletânea de Contos e Crônicas Isis Victhória Vogel Kieper

julho 28, 2021
Coletânea de Contos e Crônicas Isis Victhória Vogel Kieper
Compartilhar
Ouvir publicação

A moça não conseguia ficar longe de seu celular, era dependente dele. Bem, ela estava destruída por dentro, oca, vazia, estava desesperada inconscientemente, era uma morta viva que não sabia quem era, uma completa alienada. Se lhe perguntassem o que mais gostava de fazer, de imediato respondia, “Não sei”. Se lhe forçassem a dizer a primeira coisa que lhe vinha a mente, ela ficava simplesmente calada, olhando para o nada ou se enfurnando em seu aparelho medíocre que para ela valia mais que sua existência. Suicidou-se a pobre. Não conseguia fazer mais nada, apenas perecia clicando na tela e recebendo informações que nada informavam.

“Qual é o corpo perfeito? Como atingi-lo?” Estava assim escrito em um anúncio bem grande e de cor destaque, um vermelho intenso. Ela clicou e ficou comparando-se, medindo-se, calculando sua massa, analisando como mudar a cor dos olhos, os seus eram castanhos e ela os queria roxo. Nunca até aquele dia vira um indivíduo de olhos naturalmente roxos, porém lá marcava o anúncio de como adquirir suas maravilhosas lentes de contato.

Ela estava seriamente pensando em colocar silicone nos peitos, no traseiro e nos quadris. Ficaria tão igual àquelas funkeiras famosas que rebolavam até o chão? Foi o que fez, mas ninguém nem sequer reparou em seu novo corpo em parte artificial. Quem sabe fizesse a redução do estômago? Ficaria ela com a cintura tão estreita? Fez a tal cirurgia que lhe custara os olhos da cara e seu sustento. Riram dela, estava esquisita.

Não tinha mais dinheiro para pagar os impostos, gastara tudo no seu ideal de perfeição, resultado de sua carência causada pelo seu isolamento do mundo. Assim como debochavam dela, ela também debochava dos outros, na medida que todos andavam seriamente preocupados em receber atenção, não a conseguindo, desfazendo o outro para destacar-se sem final nenhum. Os indivíduos estavam tão profundamente deprimidos que não conseguiam pensar sobre algo, formular uma frase, sustentar uma conversa ou sentir qualquer coisa. Sua dignidade estava quebrada em pedaços.

A mulher a quem nos referíamos desde o início, não comia nem bebia nada, não dormia, o seu celular acabara a bateria e não tinha como carrega-lo, cortaram a energia da casa por falta de pagamento. Ela então colocou uma roupa bem curta e justa e foi para a rua, na calada da noite, feito um objeto, vender seu corpo. Morreu de inanição e fadiga na cama, ao lado de um sujeito que pensava que fazer sexo era moda.

 

A escritora mirim Joinvilense já publicou dois livros

Block