Quinta, 02/12/2021
Joinville - SC

Coletânea de Contos e Crônicas Isis Victhoria Kieper

agosto 18, 2021
Coletânea de Contos e Crônicas Isis Victhoria Kieper
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Na rua do Governador, vivia uma mulher muito bela. Tinha cabelos loiros escuros e possuía cintilantes olhos azuis. Não era muito alta, nem muito magra, pelo contrário, era um tanto corpulenta. A moça morava num sobrado laranja com verde de alvenaria, com um jardim bonito de rosas, sempre sozinha.

 

Era uma jovem muito discreta, quase imperceptível em qualquer lugar que fosse, quer na igreja, quer na praça. Andava ereta e imponente de um modo a achar-se tão imponente que encolhia feito animal acuado. Não era em especial triste, porém dona de uma felicidade melancólica, que a motivava a lutar contra o desespero de estar prestes a morrer a qualquer momento em si mesma.

Aparentava ser calma, às vezes um tanto perturbada, mas é normal que uma pessoa ansiosa se esperneie agitada internamente e apresente uma face pacífica de tranquilidade, como se fosse um mar. Em outros momentos, muito costumeiro expressar confusão e dúvida no olhar, enrugando a testa e expelindo horror pelos poros. Mas como disse, era imperceptível e quase ninguém a notava.

Tal criatura terrena chamava-se Julinéia Almeida, um nome escolhido pela mãe abandonada na gravidez por um sujeito que a filha nunca conhecera e nem fazia questão de, apesar de sentir-se durante a vida inteira muito carente, principalmente na infância e adolescência, quando tal miséria de afeto a fazia delirar.

Nunca tinha amigos, nem irmãos, a mãe trabalhava em excesso para colocar o suficiente para suprir as necessidades humanas em casa, que andava sempre exausta, fatigada e com o peito pesado, judiado de árduo trabalho. Esta última trabalhava limpando grandes salões de festas e casas, quando não estava servindo os clientes num bar das cercanias onde moravam.

Os anos se passaram, a mãe morreu, Julinéia estudou e se formara em jornalismo. Sempre escrevia para o jornal além de escrever poesias as quais guardava para si, numa caixa embaixo da cama.

A casa na qual residia era a mesma em que crescera e tornara-se gente, a única coisa que mudara fora a pintura que era apresentada aos transeuntes pelas velhas roseiras que completavam o quadro.

O relógio marcava duas horas da tarde de uma terça-feira, quando a senhorita Almeida observava em pé, entre as grades do médio portão, os carros passarem um atrás do outro em sua numerosa quantidade.

Estava profundamente pensando naquilo que via, para ser mais clara, estava intrigada. Por um instante, teve a perspectiva de não pertencimento do mundo, aquilo tudo era tão fútil! Cidadãos mais cidadãos de liberdade condenada vinham e iam em seus carros, ligados a rádios e a celulares que a todo glorioso segundo informavam algo indigno para manipular seres vazios que desprezavam livros e diálogos uns para com os outros.

Mais pareciam um bando de alienados que seres racionais, mais focados em espalhar notícias falsas do que em viver a própria vida. Julinéia estava se coçando para escrever um artigo sobre a alarmante situação, na qual humanos eram preparados aos poucos a se tornarem máquinas robotizadas, adaptadas ao fordismo de apertar parafusos e mais nada.

A visão de seres jogando fora toda a sua capacidade de desenvolvimento aterrorizava a jovem. Era desesperador ver que o maior entretenimento dos indivíduos era imitar o imitável.

Voltou para dentro, sentou-se na mesa do quarto e começou a escrever com toda a força que podia. Não tinha mais o que perder, estava na forca e o mais perigoso que poderia ocorrer, era morrer de vez. Toda sua carne ardia de uma coragem divina.

Assim escreveu:

A escravidão
“ Este é certamente um tempo de indecisão. As pessoas andam preocupadas e estressadas, isto as deixa ansiosas constantemente em consumir sempre o próximo minuto, esquecendo-se de viver o presente. Para suprir de imediato sua angústia, mexem em seus celulares e quando o olham, está repleto de informações feitas para enganar e manipular.

Se um sujeito pesquisa algo na internet, vão aparecer propagandas e mais propagandas, notícias e mais manchetes, por ser associado sua pesquisa a seus gostos, levando-o ao consumo em excesso. Desde aí, o indivíduo passa a ser influenciável. Desta maneira, quando chega em casa cansado, encontra os filhos a exemplo seu, enfurnados no celular.

Ninguém conversa com ninguém, o jantar se passa assim, cada um em seu mundinho solitário e evasivo. Não se faz nenhum amigo, no máximo se cria laços com alguém que lhe venderia por dinheiro ou por pura sacanagem, ‘foi uma brincadeira de mal gosto , ops, ele morreu’, assim é dito e gargalham até se esgoelar. As crianças aprendem a matar os outros e os pais aplaudem, então todos se matam e não sobra ninguém no mundo, apenas zumbis, que contentam-se em não ter nenhum espírito. Depois o que vem? Um regime que domina o planeta e tira de todos a pouca liberdade que lhes restaram.

Os seres carnais viram escravos, e feitos idiotas amam trabalhar, trabalhar, trabalhar para sustentar a lápide da própria tumba”.

Quando terminou o texto, um alívio se expandiu em seu peito. Respirou salva pelo desabafo e tomou um copo de água que trouxera consigo quando entrara no aposento. Releu o texto e mandou para o jornal.

No dia seguinte, nenhum comentário a sua matéria, nenhuma manifestação, nenhuma crítica. Ela esperava que algum oficial viesse lhe prender ou que lhe apedrejassem, mas não, nem isso.

Ela acordou então de sua ilusão. Não vivia na rua do Governador, nem morava num sobrado laranja e verde com um jardim de rosas, não era corpulenta, nem tinha cabelos loiros, tampouco tinha olhos azuis. Perecia num barranco de papelão, dormia junto aos ratos, era raquítica e não tinha cabelo nenhum, tinha os olhos arrancados e no lugar deles, buracos vazios.

Lembrava com nostalgia de sua vida quando ainda lhe restava um pouco de dignidade. Lhe veio a memória seu texto e a esperança que teve de abrir os olhos de alguém, mas ninguém nem sequer o leu.

Escritora Isis Victhoria começou sua tragetoria de publicaões com a participaçao em seu primeiro concurso nacional de Poesias, Poesis 2019 com o poema “Amor”,Publicou seu primeiro livro de Contos:”Contos e Causo de Isis”em 2020, publicou também neste ano ,3 poemas em diferentes antologias nacionais onde concorre com escritores de todo o Brasil: Poetize ,Poesia Livre e Sarau Brasil, com as poesias “Vida”, “Dia de Primavera”, “Homem”. E também 1 conto na Antologia contos Brasil 2020, com o Conto “Miserável”, Teve seu conto “Fundo da Lagoa” selecionado entre os 10 em concurso literário pela Academia Brasileira de Letras SC seccional Palhoça. Em 2021 contemplada com 2 poesias selecionadas nas edições de 2021 de Poetize e Poesia Livre, com os “Poemas “Unicos e Semelhantes” e “Glória”,e em 2021 e21 também lança seu livro de poesias “Flor de Maracujá”.

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