Quinta, 23/09/2021
Joinville - SC
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Primeiramente, é importante aqui destacar, que as análises feitas sobre o mundo dos entorpecentes e seus usuários não se trata, de minha parte, de qualquer tipo de julgamento e muito menos condenações, mas falo em nome da ciência e de uma análise do comportamento humano conceituamos, a priori.

 Esta temática sempre me chamou muito a atenção e me interessou, tanto que devo ter ministrado mais de 100 palestras a respeito de dependência química em minha carreira, desde 1994, além de experiência rica que recebi diante de atendimentos a alguns pacientes com tal problemática, além de diversos cursos que participei e dezenas de artigos que escrevi enquanto jornalista a respeito. Mesmo nunca tendo experimentado algum tipo de droga, como nem bebida alcoólica costumo ingerir, tenho um repertório grande a respeito dentro de uma leitura científica, jornalística e filosófica deste universo dos entorpecentes e afins.

Dentro de uma perspectiva psíquica, social e física, o uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, promovem danos, muitas das vezes irreparáveis, no contexto familiar, profissional, social, sexual e, resumidamente da vida dos usuários e dos que com ele convivem direta ou indiretamente, chegando a ser considerado, no Brasil, um dos piores problemas sociais a ser enfrentado. É natural que um usuário de maconha, por exemplo, acredite que nunca chegará a viver na rua, mendigando ou usando drogas pesadas de fato, como o craque, mas ele não entende que o atual usuário de craque que está na rua, no início de tudo também nunca imaginou que um dia estaria nestas desumanas condições, é um jogo, um jogo deveras perigoso, que a questão que fica é: vale a pena jogar para ver quem tem a razão?

Tanto as drogas lícitas (cigarro, bebida alcóolica e afins) e ilícitas (entorpecentes e afins) fazem papel compensador, psicologicamente falando, de faltas internas, mesmo sendo vista por muitos como um ato relaxante ou estimulante, mas mesmo sendo de origem natural ou sintética, diz respeito a um mecanismo escapista da própria realidade não aceita pela pessoa, assim como tentativa de suplantar sentimentos de frustração, de baixo autoestima, de insegurança pessoal, de abandono e etc, mas que se comporta como uma verdadeira “roleta russa” que pode brindar o usuário com danos irreversíveis, ou até pela morte, ou pode sim passar praticamente ileso, pois depende da constituição subjetiva do sujeito, bem como de sua condição fisiológica em associação ao que for usar.

Vale destacar que, para o usuário, não existe esta questão de estar buscando através das drogas suplantar dor existencial, baixo autoestima, frustração, grau de inferioridade diante dos demais, insegurança e etc, pois isso não está relacionado ao seu entendimento consciente, pois se estivesse, provavelmente procuraria ajuda ou outra forma menos danosa para se a ver com seus faltas internas. No entendimento dele geralmente é uma questão de simples curtição, de aproveitar a vida, de opção de relaxamento e prazer, de confraternização entre amigos e, alguns inclusive acreditam ser uma questão de experiência espiritual, comum entre algumas tribos indígenas, sendo que alguns usuários se sentem modernos e superiores aos demais por usarem determinadas drogas e eles não, ficando claro neste contexto sua necessidade de dar conta de seu complexo de inferioridade.

Eles não percebem o uso de drogas como uma questão de sua fraqueza pessoal, tanto que justificam de diversas maneiras tal uso, utilizando o mecanismo de defesa que chamamos de racionalização, em psicanálise. Existe ainda uma negação clara da realidade, a qual é apaziguada com o uso dos entorpecentes quando começam a ficar conscientes de sua situação, num sentido de desvio de atenção, de abafamento da própria realidade pessoal. Ninguém pode lutar esta batalha pelo usuário, é preciso que ele se disponha a tal, e mais difícil que isso, é ele aceitar que existe uma guerra a ser travada a respeito, pois geralmente acredita que existe normalidade em suas ações, principalmente por estar inserido num contexto social em que comungam com este pensamento, desconhecendo uma realidade maior que a sua.

Não adianta discutir com usuários de drogas, apenas os deixe que falem se eles assim quiserem. Permita que eles expressem o que pensam e como se sentem, do jeito que eles quiserem e da maneira que for, e mesmo que sejam absurdos ditos, apenas os ouça, sem julgamento e muito menos condenação, pois eles falando, aos poucos irão elaborar dentro deles o que dizem e ampliarem aos poucos a consciência de si e do mundo. Se atacá-los e recriminá-los, provavelmente eles entrarão em conflito e se armarão de forma a atacar as ameaças de terem de ver o que não querem ou não conseguem neste momento por falta de estrutura psíquica para tal, e irão então fazer de tudo para defender o lugar comum em que se encontram, pois sair da zona de conforto não é fácil para ninguém.

Entenda que não adianta dizer para eles que a vida deles está limitada, com tantos problemas e confusões e questionar o nível dos amigos e relacionamentos que eles têm, pois no fundo eles já sabem disso tudo, mas não conseguem associar isso claramente ao uso de entorpecentes, mesmo aqueles que acreditam usar apenas para descontrair, como por enquanto estão tão dependentes destes relacionamentos e atitudes, quanto das drogas, pois é o mundo deles, onde aprenderam a suportar a vida que acreditam ter. Não tente pensar por ele, permita que ele cresça por si mesmo. Creia no potencial dele de vir a ser alguém melhor do que já é, não o limite e muito menos o menospreze. Não são poucos os usuários que são pessoas de grande potencial interno, só faltando canalizarem para o que realmente possa promover uma vida melhor para eles e suas famílias.

Aceitar o outro como ele é, já é um passo importante para tê-lo ao seu lado e caminharem juntos em direção a um estado melhor para todos, principalmente para ele mesmo. Lembre-se que todos nós somos o que podemos ser neste momento e que ninguém é tão perfeito que não tenha que se aprimorar e melhorar. Deposite confiança em seu amigo ou parente usuário, deixe-o sentir que ele é muito melhor do que ele está sendo, mas que a mudanças estará nas mãos dele, e no tempo dele, podendo contar sempre com seu apoio diante disso. Além de tudo, não busca culpados e não seja hipócrita de achar que é culpa das amizades que o cercaram, a culpabilidade que acionou tudo isso é complexa e dentro de uma leitura individualizante, tanto que, no mesmo seio familiar, mesmo tratados todos da mesma maneira, cada qual tem seu caminho escolhido ou inserido. Não existe, neste contexto, alguém melhor ou pior, apenas seres humanos de histórias diferentes.

O início no mundo das drogas se dá por diversos fatores, como: busca de aceite social; procurar suprir frustrações, insegurança pessoal, crença que então agora pertence a um grupo de amigos e que o compreende e não o julga e muito menos o condena; convivência em meio social afim; filhos de pais usuários ou traficantes; pais severos ou ausentes demais desde a infância; entre outras formas de compensar alguma falta interna que sente, mesmo que inconsciente ainda venha a ser. Assim como alguns buscam as drogas para suplantar o vazio ou insegurança existencial, outros buscam outras formas compensativas como comer muito, se dedicar muito aos esportes, intenso religioso, compensa com conquista de riqueza e status social, torna-se um workaholic, uso exagerado de remédios, entre outras formas, onde o excesso sempre é um alerta preocupante, mas estes chamam menos atenção por não serem, aparentemente, tão prejudiciais e nem considerados marginalizante como o mundo das drogas.

Existe ampla literatura a respeito do uso de drogas e suas consequências, que é ratificada com a observação in loco, seja nos atendimentos clínicos, seja nos noticiários policiais e etc. O usuário geralmente tem uma vida que tenta maquiar com recurso das drogas, sendo claramente frustrante em seus diversos aspectos aos que o percebem fora do seu próprio contexto, como: diante de questões financeiras geralmente difíceis; relacionamentos familiares conflitantes ou inexistentes; envolvimentos amorosos de grande atrito e insensibilidade e, ao mesmo tempo, de imenso grau de dependência psicológica, onde acredita que ama além de tudo o outro e não tolera perder a pessoa, a qual se torna outro mecanismo de uso feito a droga para suportar a si mesmo, vivendo um relacionamento VAMPIROSO (um sugando o outro e não um crescendo com o outro), sendo que, no caso amoroso, geralmente o lado que se liberta das drogas, ou melhora a própria autoestima, costuma abandonar seu parceiro de maneira radical, e os relacionamentos que se mantém, geralmente permanecem alicerçadas em um mix de agressividade, desrespeito e declarações apaixonantes e de ódio sem limites e, além disso tudo, existem grande chances com envolvimento com o crime de alguma espécie, seja de fora direta ou indireta, até mesmo para dar suporte ao seu uso, que não consegue alimentá-lo devido a crise financeira e social em que se encontra devido ao uso da droga, em muitos dos casos.

Um dos maiores problemas para ajudar um usuário de substâncias psicoativas, é que ele dificilmente consegue assumir seu grau de dependência, a qual pode ser nomeada até diante do uso quase que diário de entorpecentes, mas que para ele é um ato de seu livre arbítrio e acredita ter pleno controle sobre tal. Outro grande problema de usuário que observamos na literatura, na clínica e afins, é a falta de compromisso com a verdade do usuário, cujo perfil, muitas das vezes, se dá através do oportunismo de ocasião, mentindo com grande continuidade em busca de benefício próprio, não conseguindo manter amizades boas, para além das que tem tanta dependência quanto das drogas, que são seus parceiros deste mundo, que se retroalimentam com a fantasia de um bem estar e, com estes, se sentem seguros, mesmo mais parecendo cegos conduzindo cegos para o precipício em muitos casos, mas passam a ser espelhos uns doutros, por isso acreditam ser grandes amigos e amizades interessantes, pois os brinda da realidade do mundo e de si mesmos.

Entorpecentes podem ser classificadas conforme sua concentração, e passam a ser organizados a partir dos mecanismos de ação no Sistema Nervoso Central e subdivididas em várias classes, como as drogas repressoras que promovem redução das atividades cerebrais e das funções orgânicas, já as estimulantes aumentam a atividade no SNC, as perturbadoras (alucinógenos) que afetam a percepção e o senso espaço-temporal e ainda temos medicações psiquiátricas utilizadas no tratamento de transtornos mentais.

Também deve-se levar em conta às vias de administração e absorção, que pode ser via oral, intranasal, por inalação ou injetável. Referente à origem e estrutura química, podem ser de nível natural (plantas com princípios psicoativos); as semi-sintéticas (manipulação química de drogas naturais); sintéticas (processos químicos que dispensam o uso de substâncias vegetais). Claro que uma tende a ser mais agravante do que outra, mas isso não descarta a periculosidade, até mesmo das drogas ditas naturais, pois depende do tipo de uso e questão física e psicológica do usuário, assim como não se descarta os perigos de drogas lícitas, como bebida com teor alcoólico, cigarro e afins).

Drogas que chegam a promover euforia e excitabilidade por até uma hora; confusão mental, alucinações e delírios; sonolência, entre outros sintomas, devem ser vistas com sinais de grande alerta diante dos danos causados principalmente no cérebro do usuário.

Muitos pedem a legalização e aceita o uso da maconha, por exemplo, por considerarem de origem natural, mas isso é altamente falacioso, e uma busca do que chamamos de “racionalização” do intento. Conforme dados apresentados pela FIOCRUZ, um em cada dez usuários de maconha, se tornam dependentes se consumir entre quatro e cinco anos contínuos, sendo um risco comparável à dependência do álcool. Outro item que vai contra a liberação da maconha é o grande índice de desencadeamentos de esquizofrenia devido ao uso desta droga, pois esta aciona o gene correspondente a esta doença hereditária incurável, o qual poderia permanecer na pessoa sem se manifestar durante toda a vida, se não fosse pelo uso da maconha, em especial quando o início do uso se dá na adolescência, sendo uma condição de etiologia multifatorial, pois é acionada pela interação entre fatores genéticos e ambientais. Estudos afirmam que 8 a 24% dos casos de psicose poderiam não ocorrer se não fosse o uso da maconha. E afirmar que acabaria com o tráfico também é falacioso, pois se assim o fosse, não existira grande contrabando de cigarro e bebidas alcoólicas, em se tratando de drogas legalizadas.

Mais do que combater o uso de entorpecentes, é preciso prevenir, buscando mecanismo que evitem o ingresso a esse submundo sombrio. A prevenção se dá de modo bem complexo e amplo, considerando as características biopsicossociais do público alvo. Não é marginalizando o usuário ou o culpabilizando, e nem a sua família ou amigos por sua condição, que se estará ajudando a remediar esta questão. É uma questão de saúde pública, e como tal deve ser tratada, com respeito e compromisso com a verdade, e desmistificando o romancismo a respeito de algo desencadeador de tanto sofrimento no seio social, em especial ao próprio usuário, que geralmente não tem condições psíquicas e intelectuais para tal compreensão.

Outra questão que precisa ser revista é a de termos a polícia atribuída de erradicar o uso de drogas, pois ela tem associação direta com à repressão dos crimes e perseguição de criminosos, enquanto a prevenção está associada à estratégias educativas, de acolhimento e dentro do viés de um problema de saúde pública. Marginaliza-se o usuário literalmente diante da repressão policial operacionalizado em ação cotidiana dentro de ordens que recebem do comando enquanto abordagens a serem feitas e, não necessariamente, desejo do soldado.

Coibir o tráfico e demais atividades ilegais ligados ao uso de drogas é uma coisa, mas depositar sobre o usuário em geral um acolhimento truculento e marginalizante, é outro, e de nada promove o bem social a longo prazo, mas provavelmente o agrava. É um falso moralismo ou incapacidade dos governantes tais práticas propor, sendo os policiais meras ferramentas diante deste agravante, sendo suas ações condicionadas a um provocamento e não como dispositivo de amenização deste mal social. Mas este resultado não pode ser atribuído a prática operacional do policial em ação diante dos usuários, pois estes apenas respondem a comandos, e estes, a governantes.

É uma questão de releitura de ação adequada. Policiais precisam ser mais bem preparados, técnica e psicologicamente, até para não adoecerem em seu labor diário, devido a ele. Volto a destacar que trato aqui do atrito PM x Usuário, e não ao tráfico de drogas e afins. Tanto que, quem me conhece, sabe a paixão que tenho pela PM e o quanto defendo a instituição a toda prova. Vale destacar o trabalho de prevenção das drogas promovido pela PM através do PROERD, pela PC pelo CAPE, pela Associação Nacional dos Servidores da Polícia Federal (ANSEF) com o apoio da PF com BRASILEIRINHO, entre outros.

Finalizo este artigo certificando que não se trata de marginalização do usuário de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, mas de uma análise científica que fazemos por tantas décadas a respeito, como dos dados de campo, onde a quase totalidade de detentos nas penitenciárias tem relação às drogas, que famílias estão se desestruturando e sofrendo até mesmo caladas ou fazendo de conta que nada de errado está acontecendo, que vidas estão perdendo o sentido de ser, que casos de psicóticos têm crescido devido ao uso, que assassinatos tem aumentado e o tempo de vida de um usuário em geral tem sido reduzida por diversos fatores como morte por assassinato por dívida com traficantes ou envolvimento com roubos ou assaltos, bem como por doenças físicas acionadas pelas drogas. Tampouco me disponho como detentor de uma verdade maior, mas apenas como veículo de uma análise científica e sociocultural em reconhecimento diante de tal realidade, assim como não tenho compromisso com o erro, logo, qualquer encontro científico que refaça determinados conceitos, estamos abertos para abraçá-los. O que não posso é comungar com o senso comum e nem com o achismo ou suposições de determinadas ordens que buscam validade o que é não tem valor como tal.

Aos usuários e afins que gostariam que eu tivesse outro discurso, sinto muito, não tenho como, pois estaria contribuindo para a piora do quadro já apresentado, pois quando falamos em nome da ciência, do jornalismo e do bom senso, temos que ser claros, diretos e comprometidos com a verdade factual. Como não posso dizer que usar drogas não é uma ferramenta escapistas da realidade que não suporta em si e para si, e muito menos que se trata de algo maneiro e de gente forte, adequadamente consciente de fato e segura. Mas desejo a todos força e sorte e afirmo que não se trata, em sua maioria, de marginais, mas de seres humanos em busca de um lugar ao sol como todos nós, ficando aqui meu acolhimento humanos mais do sincero a todos. Tenho certeza que cada usuário é muito mais forte do que as drogas que usam para aliviar seus espíritos e mentes agitados e inconformados e que, com humildade e reflexão, poderão ser muito melhores do que já são.

(Carlos Alberto Hang, jornalista – 03991/SC, psicólogo com formação ainda em filosofia, psicanálise, Terapia Cognitivo Comportamental, Psicologia do Esporte, Psicologia Clinica e Comportamental, PNL – Programação Neurolinguística, Promoção da Saúde e Prevenção de Drogas (UFSC), Prevenção de Drogas, Codependentes: Pais na Prevenção ao Uso de Drogas, Saúde Mental e Dependência Química, Terapia Familiar e de Casal, Coaching, Mentoring, Educação Sexual e Sexualidade, Neuropsicologia, e afins)

 

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