Segunda, 19/04/2021
Joinville

Páscoa com jeito de infância

abril 3, 2021
Páscoa com jeito de infância

Presentear a criançada com ovos pintados à mão e recheados com pequenos amendoins confeitados era um costume comum em Joinville e na região, no período de Páscoa, ao longo do século 20.

A partir dos anos 1970 e por quase duas décadas, porém, essa tradição ganhou novos contornos. Nessa época, uma artesã aliou a habilidade com os pincéis às lembranças da infância e foi buscar nos antigos livros infantis alemães os desenhos para decorar ovos torneados de madeira.

O resultado foram delicadas peças feitas à mão e repletas de coelhos sorridentes que lembravam a alegria da renovação da vida, que marca o Domingo de Páscoa. “Eles estavam sempre sorrindo – já era uma marca. Gosto de pessoas alegres. Como pode um coelho ser triste? Jamais!”, explica Tânia Marlene Haensch, que durante quase 20 anos se dedicou a confeccionar os ovos e manter vivo o costume cultivado pela família.

A ideia de pintar os ovos de madeira começou na segunda metade da década de 1970. Porém, inspirada pela avó Sophia Pahl, ela já pintava casquinhas de ovos desde a adolescência. Tânia conta que um dia, há mais de cinquenta anos, a Oma apareceu em casa com tintas e pincéis para incentivá-la a pintar. A menina olhou com desconfiança para aquilo, mas dizer “não” para a avó era algo impensável e ela resolveu experimentar.

Ao invés de ovo de galinha, mais frágeis, a avó deu-lhe ovos de ganso, que são maiores e têm a casca mais resistente. “A casca do ovo de galinha quebra facilmente, às vezes até no manuseio”, explica ela, que já nessa época desenhava à mão livre, quase como um treino para o trabalho que iria desenvolver anos depois.

Nesses primeiros tempos, tentava se entender com os pincéis e as tintas e exercitava a busca pela expressão nos rostos dos coelhos. “Eu não gostava de pintar os pés dos animais, então colocava eles no meio de matinhos, para escondê-los. Mas a expressão do rosto, eu tirava de letra – o que não é tão fácil de fazer”, revela, divertindo-se. Aos poucos encontrou pincéis mais macios, que contribuíram para que aumentasse a desenvoltura e aperfeiçoasse o traço.

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Anos depois disso, já casada e com as filhas pequenas, começou a comercializar informalmente as casquinhas de ovos de ganso decorados para a época de Páscoa. O pai, Marcos Humberto Fruit, então, lembrou que pequenas fábricas em São Bento do Sul faziam serviço de torno e produziam peças de madeira, maiores e mais resistentes. Os ovos de ganso já faziam sucesso na tradicional Livraria 15, de Frau Lilli Güntert e Frau Irmgard Leye, e Tânia decidiu apostar na novidade. Pegou o contato com as fábricas, subiu a Serra, encomendou ovos de madeira de quatro tamanhos diferentes e começou uma nova fase.

Maiores e firmes, os ovos de madeira permitiram ampliar o trabalho que fazia. Se no princípio os desenhos eram pequenos, logo eles se transformaram em cenários complexos, com famílias de coelhos, pássaros, borboletas, cogumelos, joaninhas… tudo retirado dos antigos livros infantis que ganhou de presente na infância e que guardou durante anos. “Era tudo artesanal, desde o ovo até a pintura.

Não tem como fazer em série, em uma indústria”, comenta a artesã, que assinava as peças com as iniciais de seu nome, “TH”, como se fossem um quadro. Desenhava com lápis, à mão livre, somente olhando para os livros. Depois pintava os esboços com cores vivas, fazendo um jogo de luz e sombra, e dando o volume que caracterizava suas peças. Nas pinturas, os coelhos ganham características humanas, com movimento e olhos que sorriem – exatamente como nos desenhos das antigas publicações que eram presenteadas às crianças.

Assim como Tânia, muitos joinvilenses cresceram nos anos 50 e 60 – e até antes – lendo os mesmos livros e logo reconheceram as imagens que fizeram parte de sua infância. Não demorou para os ovos de madeira caírem no gosto das pessoas que frequentavam a Livraria 15 e a artesã quase não dava conta da produção. “Era levar de manhã e à noite não tinha mais. Muitos colecionavam”, recorda ela. Como eram ocos e grandes, eles eram abertos e recheados não só com doces, mas com os mais variados presentes – inclusive joias.

Até início dos anos 90 os ovos de madeira de Tânia Haensch ainda eram encontrados na loja. Depois, a vida cumpriu um ciclo, ela passou a se dedicar à sua própria loja e migrou para outros tipos de pintura. Mas ainda guarda os livros e os pincéis, muitos dos quais presenteados pela avó, a grande incentivadora.

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Um talento para despertar o que cada tinha de melhor

Há mais de cinquenta anos, quando a Oma Sophia Amélia Pauline Schubert Pahl chegou com o material de pintura e falou “trouxe tintas e pincéis para você me pintar uns ovos”, Tânia Haensch não gostou muito da ideia. A avó já pintava as casquinhas de ovos para a família no período da Páscoa e pretendia ensinar à neta o que, provavelmente, aprendeu ainda menina com seus pais e avós. Um hábito que hoje está quase esquecido entre os mais novos.

Apesar de relutar a princípio, Tânia conta que a avó tinha um jeito especial de lidar com os outros e sabia como ninguém despertar o que cada um tinha de melhor. A adolescente, então, decidiu tentar – e, aos poucos, os desenhos desajeitados foram tomando forma e transformando ovos de ganso em peças únicas. Embora a jovem ainda não soubesse, a avó já tinha vislumbrado o talento que morava nela. “Tinha uma visão das pessoas incrível”, recorda ela, que ainda hoje guarda os potes com pincéis usados pela Oma.

Sophia Pahl faleceu em 1982 e chegou a ganhar muitos ovos de madeira pintados pela neta. Depois de sua morte, eles foram divididos entre a família, que ainda os guarda, assim como tantos outros joinvilenses. “Ela viu que aquela sementinha deu frutos e muitas flores que perfumaram a vida de muitas pessoas”, explica, Tânia, emocionada.

A imagem que abre este post é de Maria Cristina Dias / A foto de Tânia Haensch é de Carlos Júnior 

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