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Prisão ocorreu na manhã deste domingo (22)(Foto: divulgação, Polícia Civil)

Urgente : Suspeito de ameaças à vereadora Ana Lúcia é preso

A Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da A Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (Dpcami) de Joinville, cumpriu um mandado de busca e apreensão na residência do autor das ameaças racistas à vereadora Ana Lúcia Martins. A prisão ocorreu na manhã deste domingo,(22). O mandado foi cumprido em parceria com o Instituto Geral de Perícias.


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A Dpcami instaurou inquérito por injúria racial e ameaça. Segundo a vítima, os ataques virtuais ocorreram desde o último domingo (15), com o resultado das eleições.

“O que for postado, seja por quem for postado, deve ser postado com responsabilidade para não ofender ninguém, pra não ferir os direitos dos outros”, disse a delegada Cláudia Cristiane Gonçalves de Lima.

Um dos comentários direcionados à vereadora, por um perfil ainda não identificado, diz: “Agora só falta a gente m4t4r el4 [sic] e entrar o suplente que é branco”

Post direcionados à vereadora, por um perfil ainda não identificado pela polícia — Foto: Reprodução/ Rede social

Ana Lúcia está entre os 19 eleitos para o Legislativo no maior colégio eleitoral de Santa Catarina. Neste primeiro pleito que participou, a professora ficou em sétimo lugar.

“Nós estamos aí em 2020 e ainda recebendo este tipo de reação na eleição legítima de uma vereadora eleita por 3.126 pessoas que acreditaram no nosso projeto, que acreditaram na minha história de luta”, disse a vereadora.

Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville — Foto: Redes sociais/Reprodução

Entidades, associações e políticos se posicionam

Após as ameaças, diversas entidades, instituições e figuras políticas emitiram nota de repúdio. Entre eles está o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil.

Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir)

O COMPIR – Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, vem a público REPUDIAR as injúrias raciais cometidas contra a recém eleita vereadora Ana Lúcia Martins, que no dia 15/11, alcançou com muita luta, a posição da primeira mulher preta, eleita DEMOCRATICAMENTE como vereadora na Cidade de Joinville. Nesse sentido o COMPIR pede RESPEITO a essa notória cidadã, que atingiu um marco histórico e que por esse motivo causa desconforto em uma parcela da sociedade; que outrora veladamente, mas agora abertamente pelos meios virtuais, – luta para rebaixar a população negra que por mais 300 anos foi tratada como mercadoria e que mesmo após a sua “liberdade” ” continua lutando pelo merecido espaço social. Sendo parte dessa luta, o COMPIR se compromete em acompanhar e denunciar a nível federal esses sujeitos (pseudos formadores de opiniões) que estão se opondo a igualdade racial, na tentativa de novamente jogar o povo preto para senzala.

Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, constituída por 96 organizações com forte histórico de compromisso com a democracia, expressam sua irrestrita solidariedade à Ana Lúcia Martins, primeira vereadora negra eleita no município de Joinville/SC.

Ana Lúcia é reconhecida no estado de Santa Catarina e em nível nacional pelo seu engajamento e compromisso contra o racismo, pelos imigrantes haitianos, impactados pela xenofobia e pela dignidade das mulheres negras, que são as mais impactadas pelas violências racista e patriarcal.

O resultado das eleições do dia 15 de outubro indica que há um desejo de ruptura com a cultura do ódio e com as polarizações.

Exemplo disso, foram os mandatos coletivos – que cresceram e ganharam destaque -, o avanço, ainda que pequeno, de mulheres candidatas e eleitas, sem contar as pessoas trans que conseguiram vagas nas casas legislativas municipais.

Entre as muitas surpresas do último processo eleitoral, um deles foi que a associação de candidatos a um “título religioso” não significou vitória automática, nem reeleição garantida. Isso mostrou que os cidadãos e cidadãs estão cada vez mais conscientes de que o voto não deve ser tutelado.

A segunda surpresa foi a eleição de pessoas que representam grupos socialmente vulnerabilizados e excluídos da política representativa. A eleição de mulheres negras e jovens, de mulheres trans e representações indígenas indicam que há uma mudança social em curso que aponta para a necessidade de ruptura com a política patrimonialista, racista e patriarcal. Entre as variáveis que indicam se uma democracia é forte ou não, é a pluralidade das representações políticas.

Historicamente, esta variável indica que nossa democracia é caracterizada pela total ausência de representações que expressam a pluralidade da sociedade brasileira. Talvez esta seja a primeira eleição que aponta a possibilidade de transformarmos esta característica da política representativa.

O Brasil tem uma dívida histórica com as populações negras, indígenas e trans. Garantir que os espaços institucionais de representação política sejam reflexo da sociedade é um passo fundamental para repararmos esta dívida. Não há democracia em um país representado por uma pequena elite política identificada e comprometida com agendas políticas que não possibilitam as transformações estruturais necessárias para o aprofundamento da democracia.

Não aceitaremos as ameaças, intimidações e desmerecimento da importância da eleição de Ana Lúcia e de nenhuma outra pessoa e mandato coletivo eleitos pela organização e luta dos grupos vulnerabilizados.

Exigimos que as instituições responsáveis por investigar estas denúncias realizem apurações sérias e transparentes e que as pessoas responsáveis pelas ameaças sejam responsabilizadas nos termos da lei.

Da mesma forma, repudiamos a tentativa de algumas lideranças políticas, levantar suspeitas sobre o resultado das eleições, insinuando, sem provas, que houve fraude no processo eleitoral.

Quero me ver no poder, foi a afirmação que animou a luta pela democratização do poder ao longo do processo eleitoral. Agora afirmamos, nos manteremos no poder porque a democracia nos garante este direito.”

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