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Segundo a Organização Mundial da Saúde, 17% das pessoas, em algum momento da vida, pensaram seriamente em cometer suicídio Foto: Jared Keener

Especialista revela como pais e educadores podem prevenir o suicídio infantojuvenil

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 17% das pessoas, em algum momento da vida, pensaram seriamente em cometer suicídio. Essa ideação suicida é agravada na transição da infância para a adolescência, fase marcada por alterações biológicas, psicológicas e emocionais.

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Por isso, a Coordenadoria Estadual da Infância e Juventude (Ceij) preparou uma campanha para marcar o Setembro Amarelo. O objetivo, explica nesta entrevista Bianca Maria Sebbem Lima, oficial da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, é “levar conhecimento para que pais, educadores e sociedade possam identificar os sinais e impedir que a ideação suicida passe para a fase da tentativa”.

Bianca é pós-graduada em Direito Constitucional, especialista em Direito de Família, Direito Material e Processual do Trabalho e pós-graduanda em Direitos Humanos e Políticas Públicas para Infâncias e Juventudes pela PUC-PR, com trabalho de conclusão de curso sobre prevenção ao suicídio infantojuvenil.

P –  Quais são os fatores de risco?

R: O suicídio é o ato final de um processo de crise enfrentado pela pessoa, que não encontra saída para aliviar o sofrimento senão tirar a própria vida. A intervenção durante esse processo pode evitar um desfecho trágico. Embora inúmeros acontecimentos possam ensejar a ideação suicida, alguns fatores são considerados elementos de risco.

Crianças ou adolescentes que sofreram abusos físicos e sexuais, uso abusivo de drogas e álcool, transtornos mentais, ocorrência de bullying e luto por pessoa que tenha cometido suicídio são alguns deles. Esses eventos por si sós já devem motivar assistência psicológica. Em relação ao último fato, é importante destacar a necessidade da posvenção. Para cada suicídio há, em média, seis pessoas que sofrem as sequelas emocionais do ato.

Especialmente crianças podem se tornar mais vulneráveis a reproduzir o ato, por não saberem lidar com o luto. Adolescentes podem sentir vergonha, sentimento de rejeição e questionamentos contumazes, especialmente porque é comum as pessoas deixarem de fornecer suporte por não saberem como agir em relação ao fato. Se alguém próximo cometeu suicídio, é importante realizar o acompanhamento desse jovem sobrevivente, que é considerado em grupo de risco. Se já houve tentativa, é considerado em grupo de alto risco e a atenção deve ser redobrada.

P – E a que sinais os pais devem estar atentos?

R: Alguns traços são comuns à personalidade da criança e do adolescente, entretanto os pais, educadores e responsáveis devem estar atentos às mudanças de comportamento. Muitas vezes esse jovem pode estar sendo vítima de bullying motivado por racismo ou homofobia, por exemplo.  A situação é agravada pelo fato do bullying ser facilmente propagado pela internet e aí o sentimento de impotência na criança ou adolescente aumenta.

Antes da popularização da internet, a intimidação se limitava a determinados espaços, mas quando a criança voltava para casa ela sentia que havia um espaço seguro para se refugiar. Hoje, a velocidade e a proporção que tem o ciberbullying geram uma angústia impensável.

Caso o jovem produza conteúdos, conhecer o que ele posta pode contribuir para identificar a forma como ele se sente. Se verificado que houve uma mudança repentina no uso da internet, recomenda-se ficar atento. Isso se aplica também em relação aos perfis sociais que incitam o suicídio, bem como jogos de desafios que podem conduzir um jovem a ceifar a própria vida.

Na página da campanha disponibilizamos um vídeo feito pelo especialista em segurança digital Ivan de Souza Castilho, policial civil do Núcleo de Inteligência e Segurança Institucional do Tribunal de Justiça, no qual ele explica sobre o controle parental no ambiente digital.

P – Fora da internet, quais são os sinais?

R: É importante estar alerta quando se verifica mudança repentina e prolongada de comportamento, como irritabilidade, tristeza profunda, medo de retornar à escola, alterações de sono ou uso de drogas, queda abrupta no desempenho escolar, falta de vontade de se relacionar com pessoas do convívio ou de fazer atividades costumeiras e tédio constante, por exemplo.

Outro aspecto de extrema relevância é a ocorrência de automutilação. Muitas vezes o adolescente sente uma angústia tão grande que provoca machucados em si mesmo para aliviar o sentimento. Alguns sinais podem ser lesões que nunca cicatrizam, ausência de cabelo no mesmo lugar ou uso de vestimentas compridas em dias muito quentes. Nem sempre isso é indicativo de tentativa de suicídio, mas é importante o alerta, pois indica que há um sofrimento muito grande com o qual o jovem não sabe lidar.

P – Ao identificar esses comportamentos, o que os pais devem fazer?

R: Nunca se deve entender qualquer das manifestações como manipulação. Na dúvida, acredite. Crianças pequenas, em geral, não usarão o termo suicídio, mas expressões como “quero sumir”, “só queria desaparecer”. Já adolescentes podem verbalizar a intenção de forma mais direta.

É importante oferecer à criança ou adolescente uma escuta ativa, acolhedora e sem julgamentos. Nunca minimizar o sofrimento com frases como: “você tem tudo, não deveria se sentir assim”, “isso é coisa da juventude, vai passar”, mas demonstrar interesse genuíno no sofrimento. Após essa conversa, deve-se procurar ajuda psicológica e psiquiátrica, bem como restringir o acesso aos meios de concretizar a ideação suicida como armas, medicamentos e pesticidas.

P – Quais são os canais de apoio?

R: Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), as Unidades de Saúde Básica ou o Centro de Valorização da Vida (CVV), que atende 24 horas por dia no telefone 188, chat ou e-mail. Na página na campanha é possível acessar uma variedade de conteúdos informativos acerca do tema.

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