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VOGEL PAINÉIS

OPINIÃO de Carlos Alberto Hang: O fundamentalismo religioso

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Fundamentalismo é, em geral, um posicionamento de caráter religioso alicerçado pela intransigência diante dos fundamentos da confissão religiosa a que pertence, baseado numa interpretação literária dos textos sagrados e na recusa a rever suas interpretações, sentindo orgulho pelo grupo religioso a que pertence desconsiderando aos demais. A população mundial neste momento supera a casa de 7,6 bilhões de indivíduos, os quais estão inseridos num movimento cultural e econômico diversificado, assim como religioso.



 

Como binômio da maioria das religiões, temos temor e tremor, além de incutirem e explorarem o medo em seus fiéis. O fundamentalista afirma e acredita que sua religião é a melhor de todas e ridiculariza qualquer discurso que venha a provocar alguma suspeita de falha em seu credo. O que percebemos é que o medo enche as Igrejas, as quais ficam repletas de fiéis, mais pelo medo do maligno, do que por amor a Deus.

José Saramago, em seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) escreve um conto irônico onde diz que o demônio falou para Deus que queria se converter ao cristianismo, ficando Deus incomodado com este ato respondendo ao demônio que, sem ele, a própria “igreja ou Deus” não poderiam existir, devido a tamanha promoção das obras do maligno que muitas igrejas doutrinam para que o fiel fique refém de sua religião. Já na escolástica encontramos o encontro consigo mesmo se dando mediante a entrega que se faz a Deus, por vir a ser o ser-humano da mesma essência que a divina.

É deveras importante reconhecer que cada indivíduo vivencia sua crença dentro de uma determinada estrutura particular. Além do mais, o que é conceitual no campo da religiosidade é de caráter polissêmico, isto é, possui diversos sentidos, sentidos estes que são dados pela leitura que o grupo afim faz dela. Trata-se de uma verdadeira hermenêutica cultural, tratando-se da teorização promovida pela interpretação de caracteres religiosos que passam pela peneira cultural de cada grupo social. Poderíamos dizer que até mesmo os que se consideram ateus se tornam, diante de seu ateísmo, pertencentes a uma vertente de “fé” pela crença ateísta.

Temos religiões institucionalizadas pelo poder, seja pelo poder financeiro ou pelo medo, promovendo verdadeiros soldados a defender suas bases e combater ao inimigo. Caso não houvesse pelo menos um inimigo a combater, a maioria das religiões perderia seu sentido. Podemos dizer que ter uma religião é uma questão de fé, mas com a ciência não é diferente, como exemplo temos a descoberta do átomo por Demócrito, se tratando de uma imensa abstração conceitual, pois não vemos os componentes de um átomo em suas manifestações e, mesmo assim, criamos nomes para suas partículas, tornando-se uma questão de fé na ciência acreditarmos nisso tudo.

Mas as religiões da pós-modernidade somaram em suas doutrinas de combate ao maligno algo que tem sido imperativo para o ser humano de nossa época, até mesmo pelo caráter individualista e competitivo em que ele tem se formado, que é a teologia do empreendedorismo, a qual salienta que os fiéis são “mais que vencedores” mas, caso venham a fracassarem, a sua religião fica isenta de culpabilidade, já o fiel não, pois sinalizam o fracasso dele como uma espécie de mea culpa, falta de fé ou por ter deixado o maligno tomar lugar em sua vida.

 

O estilo de vida de São Francisco de Assis não faria sucesso nas religiões de nosso tempo, pois ele não passaria de um fracassado por viver feito um mendigo diante dos olhos de nossa sociedade, pois esta e seus integrantes querem saber do hic et nunc (aqui e agora) e não mais se sustentam em esperar um novo céu e uma nova terra numa vida pós-morte.

Atualmente os pastores e afins das igrejas são preparados e assumem verdadeiros papeis de coaching & mentoring. As religiões têm assumido uma direção que instiga o “usar a camisa da sua religião”, treinamento para uma vida próspera e promovedora de felicidade (principalmente a financeira) em detrimento das questões metafísicas e abstratas que eram peculiares às mesmas.

 

Muitos permanecem em suas religiões por se tornarem verdadeiros reféns promovidos pelos doutrinadores através do medo de diversas ordens, bem como sendo ameaçados de serem “sugados pelos do mundo” caso insistam em não andarem na linha proposta como correta. Antes do nascimento de Jesus, até hoje, as religiões têm aumentado e mantido seus fiéis através de um chamamento para a última hora, o fim dos tempos que estaria chegando. O apelo ao que é do Sagrado tem sido tão grande que, atualmente os livros que querem ensinar passos em direção ao sucesso e prosperidade individual, têm como títulos apelações religiosas, como: “O Monge Executivo”, “Jesus, o Maior Líder que já Existiu”, Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu”, dentre outros sucessos de venda.

A maioria usa de ascese (do grego: exercitar) como prática religiosa, isto é, a renúncia ao prazer, a promoção de rituais iniciáticos ou de passagem, celibato, entre outras formas de comportamentos que promovam o merecimento de alguma graça desejada.

 

 

É pensamento também fundamentalista a afirmação de que “se a gente deixa de acreditar em Deus, acabamos acreditando em qualquer bobagem”. Os fundamentalistas acreditam que apenas a sua fé é verdadeira, combatem toda forma de secularismo, bem como a pluralidade de opiniões e ainda acreditam que só os demais são fundamentalistas.

 

No Ocidente, quando se fala de fundamentalismo religioso, logo se faz ligação com povos orientais, como os islâmicos.  O islamismo é hoje a segunda religião do mundo que mais cresce, atingindo cerca de 1,4 bilhões de fiéis. Suas imagens são associadas ao terrorismo, aqueles que sacrificam suas vidas pela religião, indivíduos radicais, etc., Mas com tantos islâmicos, será que todos são desta maneira? Se assim o fosse, estaríamos num verdadeiro caos mundial. Esta é mais uma visão fundamentalista ocidental, a qual tenta denegrir, estereotipando a cultura religiosa que não é sua.

É evidente a necessidade de um aprofundamento epistemológico religioso através da teleologia, isto é, dos propósitos, dos fins, da finalidade da religião professada. Parece que, em nossos dias, saber sobre a vida dos “santos” (hagiografia) já não tem lugar no púlpito concorrido pelos fiéis em professarem seus testemunhos de vida, principalmente quando de caráter financeiro que acreditam terem obtido mediante a aceitação de sua fé.

 

Numa sociedade complexa como a nossa, enquanto humanidade, quem pode ser considerado bárbaro de nosso tempo? Trata-se dos fundamentalistas, os quais não aceitam nenhuma cisão ou adendo e acreditam que sua missão é tornar todos os demais convertidos para sua religião e linhas de pensamentos unilaterais. Se, atualmente ainda sentimos falta de algo, este seria do exercício da empatia, da compaixão, da tolerância e de vermos como positiva a multiplicidade de linhas de pensamentos e, sobre estas, localizarmos as diferenças peculiares que vem a dar lugar a cada uma delas. Isto sim diz respeito a um verdadeiro sentido de ecumenismo.

Querer ser o dono da razão é um verdadeiro atestado de insegurança diante de suas próprias verdades e de seu mundo conceitual, sentindo necessidade de desmerecer o pensar dos demais e de convencê-los a respeito do que acredita ser o correto, provando a fragilidade de suas crenças. Enfim, como dizia Victor Hugo: “A tolerância é a melhor das religiões”.

 

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.

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Carlos Alberto Hang
Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931/SC) e jornalista (03991/SC), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz - Genebra - Suíça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville - Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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