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Mário Avancini. Foto de Pedro Alípio /AJ

Mário Avancini e a poesia contida nas pedras

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Por - Maria Cristina Dias:

O poeta brinca com as palavras para exprimir a sua percepção do mundo. O escultor brinca com a pedra e extrai dela a sua essência. Pois foi assim, extraindo a poesia e a beleza do mármore, sua matéria-prima principal, que o escultor Mário Avancini se consagrou como um dos mais importantes artistas de Santa Catarina.

Mas nem tudo foi poesia na trajetória desse homem simples, que trabalhou como calceteiro nas ruas de Joinville, como “canteiro”, cortador de pedras, na Marmoraria Koehntop, e fazendo os pedestais em pedra para as obras de Fritz Alt, outro grande nome da escultura catarinense. Só na maturidade ele conseguiu desenvolver sua arte e viu seu talento ser reconhecido.

Mário Avancini, 2ª Coletiva, 1973- Reprodução do livro "Coletiva-Art-Jlle-Const.-Mínima-Memória, da jrnalista Neri Pedroso

Mário Avancini, 2ª Coletiva, 1973- Reprodução do livro “Coletiva de Joinville: Construção Mínima de Memória”, da jornalista Neri Pedroso

Avancini faleceu há 25 anos, em 1992, deixando um legado de cerca de 2.700 peças que hoje se encontram em coleções particulares e em instituições públicas como a Casa da Cultura e o Museu de Arte de Joinville (MAJ). Agora, o público poderá conhecer um pouco mais da arte desse artista que é considerado “o poeta da pedra”.

De 5 de maio a 29 de julho de 2018, será realizada a exposição “Revelação da beleza – a matéria esculpida por Mário Avancini”, no MAJ. Ela contará com 73 peças da série “Aconchego”, pertencentes ao acervo do museu – boa parte delas nunca expostas e, portanto, consideradas inéditas. Além disso, durante todo o período da exposição também será exibido no local o filme “Decifrando a Linguagem das Pedras”, de Luciano Coelho e produção da neta do escultor, Daniela Avancini, que conta a vida do artista.

O projeto da exposição tem a curadoria de Leticia Mognol e Marcio Paloschi e o apoio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), da Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville (Secult).

Em 2011, entrevistei os filhos de Mário Avancini, Marli e Marcos, e escrevi esta reportagem sobre a vida e obra do escultor. Ela foi publicada originalmente no jornal Notícias do Dia/Joinville.

Abaixo, segue o texto na íntegra para quem quiser conhecer um pouquinho mais dessa história. A foto que ilustra essa postagem é do fotógrafo Pedro Alípio, e consta no livro “Coletiva de Joinville: Construção Mínima de Memória”, da jornalista Neri Pedroso.

Mário Avancini. Foto de Pedro Alípio

Mário Avancini. Foto de Pedro Alípio

No meio do caminho de Mário Avancini havia pedras. E, continuando a parafrasear o poeta, havia pedras no meio do caminho. Mas destas pedras, as mãos calejadas de Avancini extraíram a matéria-prima para estruturar a vida, sustentar a família e dar vazão à sua arte.

Hoje, quase 20 anos após sua morte, o escultor é considerado um dos principais artistas plásticos catarinenses e as formas suaves e fluidas extraídas por ele do granito e do mármore ainda surpreendem e encantam as novas gerações. Autodidata, com pouco estudo formal e um jeito humilde, ele trabalhou como calceteiro e atuou na cantaria de Fritz Alt.

Já maduro, deu aulas de cerâmica na Casa da Cultura, foi contemporâneo de alguns dos grandes nomes da cultura na região, realizou dezenas de exposições e obteve o reconhecimento de sua obra ainda em vida.

O convívio com as pedras marcou toda a trajetória da família Avancini. Nascido em Rodeio, em 1926, Mário vinha de uma família de agricultores que vivia do cultivo do arroz. Em meados da década de 1940, porém, a produção agrícola já não era suficiente para sustentar a família. Então, o

pai, João Avancini, foi trabalhar como britador em uma pedreira e carregou os filhos ainda adolescentes – na época, a demanda por este tipo de serviço era grande em função do desenvolvimento econômico das cidades. Foram para Camboriú e de lá para São Francisco do Sul, onde se radicaram na Freguesia da Glória ou Frias.

O dom para a arte começou cedo e ainda adolescente Mário já fazia pequenas esculturas, geralmente às escondidas. Italiano acostumado à vida difícil no campo, o pai achava que aquilo era perda de tempo. “Não vai levar a nada”, dizia João, sem imaginar que aquele talento iria fazer a diferença no futuro do filho.

Em Camboriú, ainda muito jovem, Avancini começou a tomar mais contato com a escultura, estimulado pelo dono da pedreira onde trabalhava, um “alemão” que ensinou o corte da pedra. Foi este alemão que pela primeira vez lhe falou de um artista plástico radicado em Joinville e que anos depois seria muito importante na trajetória do escultor.

Nesta época, também conheceu a “Vidinha”, Maria do Carmo da Silva, com quem casou aos 20 anos e teve seis filhos. A vida naquela época não era fácil. Jovens, morando em São Francisco do Sul e já com quatro filhos pequenos, o casal driblava as dificuldades.

Mário Avancini trabalhava como calceteiro autônomo, quebrando pedras para calçamento com uma marreta – um trabalho pesado e pouco rentável. Vidinha cuidava dos filhos e depois ajudava trabalhando como diarista e fazendo pequenos serviços.

A jornada pesada, porém, não tirava a inspiração do jovem, que ainda nem se reconhecia escultor, mas já conseguia olhar a beleza imprevisível dos cacos de pedras mal cortadas.“De um erro podia surgir uma escultura. Quanto meio-fio quebrado que virou escultura…”, conta o filho Marcos Avancini, também escultor.

Família chega a Joinville nos anos 50

A chegada da família Avancini em Joinville ocorreu na década de 50. A reboque do acelerado desenvolvimento industrial da época, a cidade crescia. Novas ruas eram abertas, novos bairros surgiam e as principais vias iam sendo pavimentadas com paralelepípedos. Mário conseguiu

um trabalho na Prefeitura de Joinville e se mudou com a família. Junto com Vidinha, colocou em um barco os poucos pertences e os quatro filhos (os dois mais novos já nasceram na cidade) e veio para a então Manchester Catarinense. “Era um emprego fixo e sólido”, explica o filho Marcos, lembrando que até então o pai trabalhava por conta própria, como autônomo, e vivia na incerteza da falta de serviço.

O trabalho continuou duro. Eram horas e horas quebrando pedras, sob sol ou chuva – uma rotina pesada que contribuiu para abreviar seus dias. Mas os horizontes começaram a se abrir. Mário Avancini trabalhou como“canteiro”, na cantaria de Fritz Alt, fazendo a base em pedra de muitos dos monumentos do escultor alemão.

Um profissional que muitos não conhecem hoje, o “canteiro” é quem faz os cantos das peças em pedra. “Embaixo de muitos dos monumentos de Fritz Alt tem um pedra de Mário Avancini”, informa Marcos. Também trabalhou no cemitério, para a Marmoraria Koehntopp, de Ivo Koehntopp. Sempre à mão livre, com uma marretinha, uma talhadeira e a ponteira.

Peça da série "Aconchego", dos anos de 1980. Acervo do MAJ. Foto de Peninha Machado

Peça da série “Aconchego”, dos anos de 1980. Acervo do MAJ. Foto de Peninha Machado

 

Na maturidade, a descoberta do artista e o sucesso

Mário Avancini começou a se dedicar mais à atividade artística a partir de meados da década de 60, quando já contava mais de 40 anos. Até então fazia alguns rostos femininos – ou cabeças de índio –, mas ainda toscos. Aos poucos, foi ficando conhecido e sendo admirado.

Na gestão do ex-prefeito Nilson Bender, no final dos anos 60, foi trabalhar na Casa da Cultura, onde deu aulas de cerâmica. Na época, a Casa da Cultura ficava na praça Nereu Ramos, onde também tinha uma feira de arte e artesanato. Avancini, então, ficava em um canto, esculpindo na praça, encantando a quem passava. E começou a vender suas peças.

Daí para as exposições foi um pulo. A cidade vivia uma época de forte produção cultural, alavancada pela presença de artistas como Schwanke, Antônio Mir e muitos outros… e pela presença de locais como a Galeria Lascaux, de Marina e Airton Mosimann, que colocava em evidência a obra destes artistas.“Eles divulgaram muito a obra do pai”, conta Marcos Avancini. Depois, suas peças foram expostas por todo o Estado e vendidas País afora e no exterior.

Sem nunca ter estudado arte, Mário Avancini criava.“Aprendia vendo e fazendo. Não se sabe de onde ele tirava a inspiração”, recorda Marcos, afirmando que talvez da pedra em si.“Ele dizia que tirava o cascalho da escultura”, conta o filho, acrescentando que “a cantaria em si é uma arte”.

Incansável e sem usar maquinários, ele produziu mais de mil peças em três fases distintas de criação: a primeira primitiva; a segunda marcada pelo aconchego e pelo cunho afetivo, onde as figuras saem da pedra fundidas, entrelaçadas; e a última, à qual se dedicava quando morreu, quando desafiava a pedra, tentando extrair dela as tonalidades sutis, praticamente imperceptíveis a olhos menos treinados.

Nos últimos anos, conseguiu a estabilidade financeira e um pouco de conforto por meio de suas peças. Com isso, conseguiu comprar o primeiro carro e mudou-se com dona Vidinha para uma casa melhor. Na época, a Cipla firmou um acordo com o artista e comprava toda a sua produção antecipadamente, o que garantiu tranquilidade ao escultor no fim da vida. Desta coleção saíram as peças que hoje integram o acervo do Museu de Arte de Joinville (MAJ).

Pele marcada pelos anos de trabalho pesado

Avancini morreu em 1992, aos 66 anos, de septicemia causada por um tétano e já enfraquecido por um enfisema pulmonar, fruto de anos e anos de exposição ao pó de pedra, do fumo constante e da vida de trabalho árduo, sob sol e chuva. Acostumado a trabalhar com a ponteira e a marreta, tinha a pele grossa, pontilhada de machucados causados pelas pedras que voavam de sua bancada. “Tinha os braços grossos de machucados. As pedras voavam e quando caíam, queimavam a pele e iam ficando encravadas no corpo”, relata a filha Marli Avancini.

Costumava esculpir durante horas em sua oficina, sem nenhuma proteção para o corpo e muitas vezes descalço.“Não tinha muito cuidado com isso. Tinha de trabalhar, ele trabalhava”, revela o filho Marcos. Na bancada deixou uma última peça, ainda inacabada, que hoje é guardada pelo filho como uma lembrança da arte do pai.“Se alguém te disser que tem a última peça de Mário Avancini, é mentira.

Ela é esta aqui”, aponta Marcos, que herdou o dom de tirar vida das pedras e trabalha na mesma oficina recoberta de pó branco que pertenceu ao pai durante décadas. E onde ele, ainda menino, começou também a esculpir.

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