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VOGEL PAINÉIS

Opinião : Carlos Alberto Hang: O mito da caverna contemporânea…

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Com o intento de ilustrar seu pensamento, Platão nos apresenta a “Alegoria da Caverna”, com a qual nos convida a imaginarmos uma caverna que contém prisioneiros escravos desde o nascimento, os quais estariam amarrados e, como só podiam olhar para a frente, visualizavam somente a parede do fundo da caverna, estando mergulhados na escuridão.

Logo atrás dos prisioneiros se encontrava uma chama brilhante que seria responsável por produzir as sombras projetadas. Entre eles e o mundo externo haveria também uma fogueira que os separaria de uma plataforma onde animais passavam e pessoas caminhavam com objetos, sendo projetadas suas sombras para dentro da caverna, a única coisa que os escravos visualizam do mundo externo ficando sem noção sobre a origem das sombras, tomando-as como se fossem os verdadeiros objetos.

Caso um prisioneiro conseguisse se desamarrar e a virar para o outro lado, poderia visualizar algo do mundo de fora da caverna. Mas mesmo vendo os objetos reais, poderia ficar um mix de confusão mental e deslumbramento mediante o tempo que permaneceu confinado, podendo desejar somente olhar novamente para a parede, pois era o mundo que conhecia até então, se sentindo mais tranquilo e seguro nele.

Mas o prisioneiro poderia conseguir sair da caverna e deslumbrar o mundo externo e, maravilhado com o que visse, resolvesse retornar à caverna para avisar aos demais que as imagens que apreciam diariamente na parede nada mas são do que sombras projetadas de objetos reais. Mas eles, por estarem despreparados para novos conceitos e para reconhecerem a realidade, poderiam atacar o amigo, se afastarem dele ou o expulsarem para sempre de seu meio.

Apresentado no livro VII da República por Platão, O Mito da Caverna procura ilustrar que a condição humana é similar à de escravos aprisionados numa caverna, os quais só poderiam apreciar sombras de objetos e seres do mundo externo projetadas na parede do fundo da caverna. A filosofia se coloca como a saída da caverna e  responsável pela cognoscibilidade da vida, dos princípios que a rege, das coisas enquanto reais.

Quanto ao retorno a caverna temos a presença das obras filosóficas e as questões dos valores do mundo humano em si.

A caverna simboliza o mundo das aparências em que estamos inseridos e as sombras que são projetadas nada mais são do que nossas percepções limitadas do mundo. Os prisioneiros estavam presos por correntes e grilhões, que representam nossos preconceitos e opiniões que nos impedem de vermos para além do mundo das aparências.

O escravo que consegue abandonar a caverna é o verdadeiro filósofo, o qual vai ao encontro da luz do sol, que representa a verdade. Esta luz ilumina o mundo para que possa vir a ser conhecido, isto é, a realidade tal como ela é.

Finalmente, é a filosofia que impulsiona o prisioneiro a abandonar a caverna através dos questionamentos que se apresentam e o encaminham em direção para fora da caverna, isto é, em direção ao mundo enquanto real.

Este célebre mito platônico está presente ainda hoje no seio social e provavelmente ainda estará por gerações e gerações. Muitas pessoas “preferem” ou “optam” por permanecerem alienadas num mundo de faz-de-conta, de aparências, de “meias-verdades” e de achismos de diversas ordens no lugar de irem ao encontro da verdadeira essência das coisas, dos pensamentos e de si mesmas.

Já aquele que deseja conhecer o mundo externo e seu próprio mundo interno em maior profundidade, ao buscar comungar com aqueles que se encontram estagnados num mundo perceptual limitadíssimo, não poucas das vezes é afastado e visto com maus olhos, quando não o colocam como alguém que perdeu a razão ou que esteja inserido em conceitos distorcidos da realidade.

Quando dizemos que não se ensina coisas de adulto para crianças, deixamos bem claro o recado que temos de que não devemos oferecer “pérolas aos porcos”, recorrendo aos dizeres bíblicos.

Pois aqueles que não querem ou não são detentores de potencial de compreensão, pouco ou nada adiantará a eles apresentarmos algo a mais, o que provavelmente voltará para nós de forma negativa. Logo, discutir com uma pessoa que esteja muito aquém das possibilidades de compreensão do que queremos sinalizar, é perda de tempo para ambos, seja para quem detém o conhecimento, seja para aquele que se nega a reconhecer as  novas possibilidades.

Muitos iniciam a trajetória de saída do limitado mundo da caverna mas, por terem permanecido tempo demais em seu interior, estando acostumados com a escuridão (falta de conhecimento maior), ao se depararem com a luz do sol (luz = conhecimento + sol = verdade), sentem-se em tormenta, seus “olhos” doem e ficam confusos e, muitas vezes optam por retornarem urgentemente ao interior da caverna, numa fuga de si mesmos e da realidade tal como ela se apresenta.

Alguns ousam profanar a própria verdade pela incapacidade de compreendê-la em seu encontro e pela frustração de não terem tido forças de insistirem na busca de conhecimento. Chegam a causar mais danos diante daqueles que poderiam ir na busca da verdade maior, no estilo “se eu não pude, você também não poderá e se eu não encontrei, você nada encontrará”, alguns chegam a amaldiçoar a própria verdade, mal entendendo eles que estão apenas relatando suas limitações e covardia diante da mesma.

A psicanálise é uma psicoterapia que auxilia nesta saída da caverna, do mundo das aparências, da distorção conceitual de mundo e de si mesmo, desde que desejada pelo paciente, que este esteja sedendo de saber de si. Geralmente a busca inicial ocorre após as apresentações de sintomas advindos da falta de compreensão consciente de si mesmo.

Muitas das chamadas crenças silenciosas posicionam o ser humano a um mundo relativamente desconhecido para ele de fato, apenas o fazem crer que sabe o que precisa saber e seus saberes geralmente se encontram associados as questões que considera evidente, que crê serem obvias demais para que possam vir a ser doutras maneiras, formando conceitos sem questionamentos, principalmente aqueles já prontos, apresentados pela família, sociedade, religião e demais mestres de sua formação.

Não são poucas as pessoas que tomam as sombras como realidade, seja a respeito de si mesmos, seja a respeito do outro ou seja ainda a respeito do mundo como um todo. Suas verdades estão carregadas de achismos sombrios, os quais acreditam serem inquestionáveis.

Quando mais tempo permanecemos na crença sobre as sombras, mais difícil é para às colocarmos em dúvidas, como se temêssemos termos sido enganados ou nos enganarmos por tanto tempo, numa sensação de um “tempo perdido” que não queremos aceitar.

A busca pela verdade é pessoal e intransferível, não podemos tercerizá-la e cada qual tem o seu próprio tempo para tal. Sendo a luz o simbolismo do conhecimento que descobre (des + cobrir, isto é, tirar o que cobre) a verdade, entendemos que até fisicamente luz demais pode vir a nos cegar. Logo, que cada qual caminhe em seu ritmo e sobre seu desejo em busca da verdade.

Quem ainda quer permanecer no mundo ilusório da caverna, que assim seja, pois mesmo que o sol nasce para todos, cada qual que deve ir em busca deste sol (verdade) conforme suas demandas internas acionem esta busca. Sobre aqueles que menosprezam a verdade alheia, não depositem suas iras, pois parafraseando termos bíblicos perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem ou dizem, são ainda crianças caminhando na longa jornada da vida.

Para iniciarmos o encontro com a verdade, primeiramente precisamos assumir nossa própria condição de ignorância, de falta de conhecimento adequado e, para tal, exige de nós muita coragem, principalmente aos mais orgulhosos, que se acham detentores de um saber-mor.

Hoje estamos em diversas cavernas, como em programas televisivos, escolas despreparadas diante de suas funções primeiras, religiões manipuladoras, governos demagógicos, entre outras formas de alienação.

Que cada qual encontre a saída de sua caverna quando assim o desejar e que o júbilo do conhecimento seja impulsionante em propagar a verdade sem necessidade de aceite de terceiros, mas repletos de desejos de que outros tenham a possibilidade deste encontro também. Bem-aventurado aquele que se abre ao mundo das possibilidades de vir a ser e de compreender a própria vida e a si mesmo!!!

(Texto de autoria de Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931) e jornalista (03991), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz – Genebra – Suíça – Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville – Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.

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Carlos Alberto Hang
Carlos Alberto Hang, psicólogo (CRP 11.931/SC) e jornalista (03991/SC), pós-graduado em psicopedagogia, especialista em Educação Infantil & Séries Iniciais; formado também em filosofia, história, letras, teologia, inglês, italiano, espanhol, trabalha com jornalismo desde 1994, ministrante de cursos e palestras, é Embaixador da Embaixada Universal da Paz - Genebra - Suíça - Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, é Cônsul de Joinville - Instituto Internacional Poetas del Mundo, detentor do Oscar Brasileiro by Grupo Jornalístico Ronaldo Côrtes de São Paulo) e membro honorário imortal da Academia de Ciências, Letras e Artes de Minas Gerais na cadeira 148. Só permitida a veiculação ou uso do texto acima mediante a nomeação do jornalista e autor do mesmo.
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